20 de outubro de 2017

A música do silêncio

Editora Arqueiro - Capa Miriam Lerner

Patrick Rothfuss criou uma trilogia, mas só escreveu dois livros. E não há nenhuma perspectiva de fazerem uma série sobre seus livros, o que nos deixa em suspenso indefinidamente sobre quando saberemos o desfecho da história. (Ele tem um blog. Ele escreve muito nesse blog. Ele não fala sobre o 3o livro. Há boatos que ele só vai publicar o 3o livro quando vender os direitos para a indústria cinematográfica. E os leitores? Paciência. Assim, eu não gosto dele e me arrependi um pouco de ter começado a ler seus livros - o primeiro é mais ou menos, o segundo é melhorzinho).

De qualquer forma, ele publicou esse spin off sobre uma de suas personagens mais enigmáticas, Auri, que vive no subterrâneo da universidade. Na descrição do livro, ele diz que essa não é uma história tradicional, que é para quem gosta de mistério e segredo. De qualquer forma, o título original porcamente traduzido para "A música do silêncio" diz mais sobre o livro do que se pode achar num primeiro momento. O título é algo como "O lento conhecimento das coisas silenciosas" (The slow regard of silent things), ou seja, o livro é lento e cheio de adjetivos.

O texto é curto, pouco mais de 100 páginas, mas é basicamente muito descritivo - todas as coisas - TODAS AS COISAS - são personificadas, e a personagem Auri as ouve, as compreende, as nomeia, fala com elas. Ela passa por uma escada, e a considera x e y, e fica procurando o seu nome. Ou ela vê um objeto e percebe que ele não está feliz ali e vai encontrar uma prateleira com companhia que lhe seja agradável. 

Aí você pode considerar a beleza e poesia disso - não só da história, como da própria personagem - ou você pode considerar tudo uma loucura. O autor reconhece isso e avisa o leitor na descrição, tudo muito coerente.

Eu?

Só gostaria que ele publicasse o terceiro livro. É pedir muito?

16 de outubro de 2017

O chamado do anjo

Editora Verus - Capa André S. Tavares da Silva

O começo de "O Chamado do Anjo" é meio besta: duas pessoas completamente diferentes (um homem e uma mulher) trombam no aeroporto de Nova York, deixam cair algumas coisas, e acabam trocando de celular. Elas só percebem que fizeram essa troca quando chegam em seus destinos: Paris e São Francisco. Aí começam a fuçar nos celulares - porque obviamente não há senha, nem bloqueio de tipo algum e ficam curiosos a respeito do outro - talvez uma atração incipiente e começam a trocar mensagens e ligações.

Eu achei super hiper mega blaster forçado esse início, mas é claro que tem mais coisa relacionando os dois personagens - que cruzaram ali por uma forcinha a mais do destino - e aí a trama muda para um suspense eletrizante com crimes, quadrilhas, assassinatos e perseguições - tudo o que franceses gostam (histórias policiais).

Resumindo, é forçado e violento - não tenho muita vontade de ler outras coisas do mesmo autor, Guillaume Musso, mas para quem gosta da temática, pode aproveitar: está no unlimited do kindle.

15 de outubro de 2017

Holes

Editora Yearling Books - Capa Brandon Dorman

"Holes" é um livro de Louis Sachar que virou o filme "O mistério dos escavadores" (embora o título do livro traduzido tenha se mantido "Buracos"). Como usual, eu não assisti o filme da Disney, mas gostei do livro. É uma história simples e bem amarrada de um garoto, cujo antepassado precisou de ajuda de uma cigana e não cumpriu sua parte no acordo, então foi perseguido por uma má sorte que passou de geração em geração. Aliás, é por isso que ele foi detido por um roubo que não cometeu e enviado para um "acampamento" ou "reformatório" com outros garotos cuja única função é fazer buracos num deserto o dia todo.

A história tem muitos flashbacks, para ir amarrando as tramas do que está acontecendo "agora" e o que aconteceu no passado dos personagens, e eu realmente gostei de como isso deixa tudo mais interessante, a ponto de irmos apostando o que vai acontecer em seguida, qual outro arco irá ser fechado entre passado e presente. Não é nada muito complexo também, nada de tramas intricadas, é um livro infanto-juvenil que estava na lista dos livros preferidos da enquete da BBC e por isso parou na minha lista de leitura e valeu a pena.

Atenção: no kindle unlimited há a versão do roteiro - rimado, inclusive - mas o livro original é em prosa.

8 de outubro de 2017

The Birthday Girls

Editora Poolbeg Press
"The Birthday Girls" (não encontrei edição traduzida) é um livro sobre 4 amigas de infância na Irlanda que chegaram aos 39 anos e se reúnem em Miami para comemorar o que é o último aniversário de todas (já que uma delas se recusa a fazer 40 anos, então vai passar a ignorar a data no próximo ano). Depois da infância, elas passaram por histórias bem diferentes - a que engravidou e casou cedo e já tem filhos adultos, a que virou atriz, casou e descasou várias vezes e está passando por uma crise com vício em álcool e remédios, a workaholic sem relacionamentos, e a artista que passou por uma tragédia e está num relacionamento estável pensando em casar.

O livro é bem simples - dá para ir adivinhando o que vai acontecer - mas o que eu achei curioso é que a autora Pauline Lawless às vezes apresenta as personagens como muito velhas, que não conseguem lidar com novas tecnologias ("melhor dar um computador para a fulana, ela não vai conseguir usar um tablet") e às vezes como jovens com corpo sexy (todas possuem corpos esculturais, umas mais outras menos, mas ninguém sofre com peso acima do normal), prontas para aventuras amorosas com desconhecidos. É claro que um livro desses - fácil - não pode dar muita profundidade para os personagens, mas eu sinto que houve exageros demais que o deixa artificial.

De qualquer maneira, foi curioso ler um "chick lit" com mulheres mais velhas.






3 de outubro de 2017

Harry Potter - The complete collection

Editora Pottermore - Capa Olly Moss

Olha o Harry Potter aqui novamente! Reli todos os livros, pela primeira vez em inglês, na versão digital. Continuam tão bons como aquelas memórias afetivas de bolo feito pela mamãe no lanche da tarde.

1 de outubro de 2017

A lista de Brett

Editora Verus - Capa Arrow Books

A lista de Brett: livrinho fácil de ler, com aquele final feliz encomendado, com empoderamento feminino e príncipe encantado. Nessa história, a mãe de Brett, que criou um império de cosméticos, falece e ao invés de promovê-la a presidente, deixa no seu testamento uma lista de sonhos a realizar (que a própria filha escreveu aos 14 anos) para que possa receber a parte do dinheiro que lhe é devida.

Para dar uma filosofada, a autora Lori Nelson Spielman coloca foco no que a gente abre mão de ser e fazer por causa do dinheiro, e como isso pode estar relacionado com uma tristeza intrínseca e falta de realização pessoal.

Mas esse livro é para ler de passatempo mesmo, não é de filosofar não! (E está no kindle unlimited.)

30 de setembro de 2017

After Disasters

Editora Little A - Capa Emily Mahon

Depois dos recentes furacões e terremotos, e com ajuda de vídeos e fotos que circulam o mundo em um instante, estamos bem familiarizados com imagens de desastres. No entanto, eu espero que a maioria de nós não faça parte de um, ou que consiga sobreviver caso se encontre em uma situação de risco dessas.

No livro, "After Disasters" (Depois de desastres), o autor Viet Dinh escolheu as pessoas que primeiro respondem a um desastre - equipes de emergência, de resgate, médicos locais - para povar um romance de humanidade tão latente, que é impossível não se envolver com os dramas pessoais deles.

O ponto de partida é um terremoto na Índia, mas a história vai e vem no tempo com os personagens, para que seja possível entendê-los. Os personagens principais são quatro homens: Ted, um americano que recentemente se tornou membro de um time de resposta a desastre, Piotr, um colega com mais experiência, Andy, um jovem bombeiro inglês e Dev, um médico local. De diferentes origens e funções, as histórias deles se cruzam no meio do caos de um terremoto que traz caos e desespero para o local.

É um ótimo livro, tanto por sem bem estruturado como por trazer a baila temas relacionados a vida e morte muito além da situação que retrata, mostrando pessoas profundas e complexas. Não encontrei informações sobre tradução em português, mas o texto original está no kindle unlimited.

26 de setembro de 2017

Machamba

Editora Nova Fronteira - Capa Danilo Perrotti Machado

Machamba ganhou o I Prêmio Kindle de Literatura, no ano passado. Depois do prêmio, Gisele Mirabai publicou o seu livro com uma grande editora. No entanto, basta ver os comentários na própria página da Amazon para ver que é um livro controverso, já que o "povo" está fazendo muitos comentários ruins.

Eu li o livro antes de ver essa questão dos comentários - e posso afirmar que não fui influenciada a dizer que não gostei. Aliás, pensei em desistir de tão ruim que eu achei, mas não o fiz porque 1: era um livro pequeno, 2: assim poderia fechar a resenha no blog com essa minha opinião (eu não incluo aqui livros não terminados).

A partir daqui, há spoilers.

A autora usa uma linguagem que lembra sim Guimarães Rosa, mas muito piorado, para contar a história da garota que sai de Minas Gerais depois de um tipo de trauma (a história vai e volta no tempo e a superação desse trauma faz parte da trajetória de redenção dela). Há muitas cenas de sexo para mostrar a desconexão de sentimentos da protagonista, mas eu fiquei com a impressão de ser algo forçado, ali para tornar a narrativa moderna e ousada. Por fim, a pessoa sai da Inglaterra, passa por Grécia, Turquia, Israel, assim, só com um cartão de crédito no bolso e uma explicação lá pelas tantas (para manter a verossimilhança, suponho), que ela já tem um passaporte europeu herdado de não sei quem (essa é a parte Comer, Rezar, Amar).

Achei o livro artificial, um recorte do que a autora achou que ia ser considerado uma boa mistura de referências. Não recomendo mesmo. Agora é a última semana para inscrição para o II Prêmio Kindle de Literatura - vamos torcer para sair algo melhor esse ano.



13 de agosto de 2017

Mulheres Visíveis, Mães Invisíveis

Editora Best Seller - Capa Marianne Lépine

O livro mais famoso da "Laura Gutman" é "A Maternidade e o encontro com a própria sombra" que, convenhamos, é algo que parece um pouco esotérico e muito alternativo. Eu sou mais pé no chão, praticidade e objetivo. No entanto, já ouvi mais de uma pessoa falando bem desse livro, então entrou na lista de interesses.

Contudo, o que cruzou o meu caminho primeiro - por estar no unlimited da amazon - foi "Mulheres visíveis, mães invisíveis", que é um coletânea de textos da mesma autora. Li tudo, fiquei encantada, fiquei admirada, estou recomendando por aí.

Não é um tratado sobre maternidade, mas a Laura Gutman vai abordando cada aspecto desse assunto, principalmente na época de bebês e crianças pequenas. Ela é radical - no sentido de pregar uma maternidade que praticamente não existe mais e pode parecer um tanto irreal nesse mundo moderno de mãe que trabalha fora, mas é uma maternidade que já existiu em algumas comunidades. 

Ela defende que a mãe dá conta do bebê. Ela carrega ele para cima e para baixo, amamenta quando precisa, faz dormir quando precisa, dorme junto, dá carinho, dedica-se totalmente a ele. O bebê irá se desenvolver saudável e seguro.

O que a mãe não dá conta - de fazer comida para ela mesma, lavar roupa, limpar a casa - tem "a comunidade de apoio": as avós, as irmãs, as vizinhas, outras mães, que vão assumir essas tarefas para que a mãe se dedique ao bebê, amparada. 

A mãe também precisa de um suporte emocional para lidar com as mudanças que estão acontecendo na sua vida, e no fato de ter uma pessoinha que a suga física e emocionalmente. Essa comunidade feminina originalmente também vai ajudar nesse sentido, por meio de conversas, presença e carinho.

Essa abordagem é na contra mão da independência e auto-suficiência feminina / materna. Parece que pedir ajuda é admitir-se imperfeita, quando todo mundo por aí apregoa um papel de super mãe / super mulher. Eu acho que a mulher dá conta de ser mãe - mas pela minha experiência, é uma mãe muito melhor se pode contar com a ajuda tanto para o básico de sobrevivência e manutenção da ordem doméstica (sem esquecer de licença maternidade real do trabalho) - e eu sou grata pelo apoio incondicional da minha mãe nesse aspecto.

A Laura Gutman também fala um pouco sobre paternidade, ressaltando como o papel do pai mudou e tem mudado. Com a diminuição da unidade familiar - sem essa comunidade feminina de apoio - caiu tudo nas costas do pai / marido (quando presente): a cobrança para ajudar com o bebê, com a casa, com o sustento financeiro, e com o apoio emocional para a mãe, que pode estar a ponto de surtar com essa nova situação de vida. É muita coisa para o pai moderno, assim como tudo isso também é muita coisa para a mãe moderna (e solo). 

Nós - mulheres e homens modernos - precisamos caminhar para uma situação familiar e comunitária em que todo mundo participe e que fique equilibrado e confortável - tanto do ponto de vista físico como emocional. Para isso, não existe uma receita de bolo - porque cada situação de adultos com filhos é diferente - mas cada um deve mesmo refletir sobre o seu papel nesse círculo de relacionamentos e agir para chegar juntos numa harmonia, que não é pesada para ninguém.

1 de agosto de 2017

Intérprete de Males

Editora Globo - Capa Adriana Bertolla

O livro "Intérprete de Males" de Jhumpa Lahiri, é um livro incrível de contos disponível no Kindle Unlimited (nem só de bast seller e literatura de banca vive esse programa, ufa) e ganhou o prêmio Pulitzer de 2000.

Com esse nome diferente, estranha-se um pouco ela ter ganhado um prêmio para autores dos Estados Unidos - mas estamos falando do país onde os sonhos se tornam realidade: a família dela emigrou da Índia para o Reino Unido, ela nasceu em Londres e com dois anos eles mudaram para lá, e ela se considera americana, afinal viveu praticamente toda sua vida lá.

O livro, no entanto, reflete essa pluralidade cultural, as histórias são sobre indianos - na Índia, na América - uma comunidade diferente, interessante não tão presente aqui no Brasil (como outros imigrantes, por exemplo, europeus e japoneses). Embora as histórias sejam bem corriqueiras (referem-se a pessoas comuns), há um pouco de pano de fundo histórico aqui e acolá, o que é uma ótima oportunidade para aprender sobre a história desse país do outro lado do mundo. 

Em cada conto, transborda-se humanidade. Relacionamentos amorosos, amizades, paternidade, religião, imigração, sanidade estão ali trazendo uma riqueza para a história graças ao olhar cuidadoso da Lahiri. É de se encantar.

29 de julho de 2017

A febre do amanhecer

Editora Companhia das Letras - Capa Cláudia Espínola de Carvalho

Quão delicioso é ver uma história de amor verdadeira e emocionante?

Muito!

Eu adoro romances. Adoro. Por isso, assim que eu vi a sinopse desse livro, fiquei encantada, e coloquei na minha lista de desejos, que virou sonho realizado rapidinho.

O autor Péter Gárdos escreveu a história do namoro dos seus pais, húngaros judeus sobreviventes do Holocausto que foram se recuperar na Suécia. Miklos, 25 anos, está a beira da morte e está desenganado pelos médicos que lhe dão 6 meses de vida, mas pensa: eu não sobrevivi a guerra para morrer aqui, solteiro. Então, ele consegue uma lista das mulheres judias da sua região da Hungria que estão na Suécia, e manda uma carta para cada uma delas. Algumas escrevem de volta, ele filtra algumas respostas, e a troca de correspondência vai em frente com Lili, que só respondeu porque teve uma crise e foi internada, e queria uma distração no hospital.

Eu gosto desse amor deliberado - pessoas que decidem deixar-se envolver-se, rendem-se a um sentimento amoroso (amor, paixão), e firmam um compromisso. É a vitória humana sobre a tragédia da guerra, manter a capacidade de amar e a vontade de viver.

Tem gente que faz isso todos os dias, depois de uma tragédia... 

Eu achei muito interessante um detalhe da história - que mostra tanto a humanidade dos médicos suecos que receberam esses refugiados da guerra em missões humanitárias: quando Lili tem uma crise e precisa ser internada, o médico descobre quem são suas amigas, e as "interna" também, para que Lili não fique sozinha no hospital. Ela já tinha sofrido tanto na guerra, estava longe da sua família, e o médico teve esse cuidado de lhe dar companhia. 

Cuidar de uma pessoa é dar atenção aos detalhes também, de cuidar do corpo e da alma...

26 de julho de 2017

Seeing Christ in All of Scripture

Editora Westminster Seminary Press

"Vendo Cristo em Toda a Escritura" é um livro sobre Hermenêutica no Seminário Teológico de Westmister - como o subtítulo indica - editado por Peter A. Lillback. 

A medida que você estuda a teologia, fica claro que há diferentes premissas e abordagens, verdadeiras escolas teológicas. Achei interessante ver nesse livro essa exposição tão clara de crenças e perspectiva de uma instituição. Seria tão bom se mais instituições pudessem ser tão claras rumo a coerência!

23 de julho de 2017

O sexo no casamento

Editora Best Seller - Capa Tita Nigri

"O sexo no casamento" tem duas linhas: dois contos que envolvem o assunto do título por Flávio Braga (um no período medieval, outro contemporâneo), e textos da Regina Navarro Lins sobre a psicologia da coisa. Os contos são bem mais ou menos, mas o triste mesmo é a conclusão do livro de que "não dá" para passar a vida toda fazendo sexo só com uma pessoa. Tem duas alternativas: terminar o relacionamento para "resolver" essa situação, ou abrir o relacionamento, e manter a relação estável enquanto se satisfaz por aí.

Achei realmente triste, pois acredito no casamento como instituição, como fundação para a família. É um privilégio encontrar alguém para dividir a vida, mas também é um trabalho manter uma relação saudável e satisfatória, em todos os níveis.

Cada um precisa traçar seu caminho individual para a alegria de viver, equilibrando todas as áreas da sua vida, e todos as faces do seu ser, mas eu, por mim, continuo desejando que as pessoas encontrem um amor para a vida inteira e que saibam construir sua felicidade em cada passo do caminho.

18 de julho de 2017

Good Night Stories for Rebel Girls

Timbuktu Labs - Capa Pemberley Pond

Feminismo de cá, feminismo de lá, algumas pessoas começaram a fazer estudos sobre a presença de mulheres no cinema, na literatura adulta, na literatura infantil. Muitos livros não tem nem uma personagem feminina, e se elas existem, elas não se pronunciam (não tem falas). Não de maneira explícita isso acaba por influenciar as crianças - o papel das mulheres passa a ser de coadjuvante e, de preferência, calado.

Isso claramente tem mudado nos últimos anos, mas "Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes" de Elena Favilli e Francesca Cavallo vai além e entrega o que o subtítulo promete: 100 contos de mulheres extraordinárias. Sim, histórias verdadeiras de mulheres atuais, do século passado, do milênio passado, que sonharam mais alto, chegaram mais longe, brilharam - basicamente, fizeram o que queriam fazer.

Não é que elas são extraordinárias comparando com a maioria das mulheres. Elas são extraordinárias comparadas com a humanidade em geral. São sucessos na ciência, no esporte, na política, em serviços humanitários, na arte, e até na pirataria. Existes homens que também são bem sucedidos e brilhantes? Sim. Mas é incrível como parece difícil citar 100 mulheres de sucesso em diversas áreas - e esse livro o faz, assim como o volume 2 que está sendo lançado também em crowdfunding. 

A proposta desse livro é clara e nobre: mostrar para as crianças do mundo que não tem nada que uma mulher não possa fazer que alguma outra já não tenha feito também - pode não ter sido fácil e pode não ser fácil, mas isso não é motivo para não sonhar alto e correr atrás do que se quer fazer.

13 de julho de 2017

The reinvention of Mimi Finnegan

Editora Kissing Frog Publications

A reinvenção de Mimi Finnegan, de Whitney Dineen, é para ler sem pensar. Na história, a "patinho feio" da família verdade vai virar um cisne logo logo (afinal é tão bonita, inteligente, esperta como as irmãs, bem sucedidas, mas ainda por cima é um coração de ouro), apesar de sua baixa auto-estima. Se você pensar, você conclui que essas pessoas e essas situações forçadas não existem. Se você não pensar, pode ficar sonhando que isso ainda vai acontecer com você: tornar-se uma Giselle Bundchen casada com o Rodrigo Hilbert.

6 de julho de 2017

Operação Impensável

Editora Intrínseca - Capa Cláudia Warrak

Pode-se escolher um livro pela capa, pela história, por uma recomendação, por uma circunstância. Eu escolhi ler "Operação Impensável" porque a personagem principal chama Lia, igual a minha filha. Critério assim meio torto, mas o fato de ser uma autora brasileira - Vanessa Barbara (e eu gosto de ler literatura local) e também estar bem barato na versão digital do kindle, também pesaram na decisão.

A história é bem simples: o começo, o meio e o fim do relacionamento entre Lia e Tito - a história começa indicando que o casamento acabou. Mas não é um relato linear, parecem mais registros escritos ao longo desses anos, emails, recados, entradas em diários. (Tem muita piada interna do relacionamento deles, referências a filmes que eu não vi, e isso eu não consegui acompanhar - e convenhamos que piada interna não tem graça para quem está de fora mesmo).

A partir daí, é difícil ficar isento - ir apontando o que foi certo, o que foi errado, talvez até escolher algum lado, aquela típica atitude de julgamento ou então de identificação - algo como já passei por isso, ou tenho um amigo que já passou por isso e sei bem como é, olha aqui, ouve esse conselho (mas no caso dos personagens, essa parte de interferir no rumo das coisas não rola).

Um ponto interessante é que os personagens adoram a guerra fria - a Lia é historiadora estudante do assunto, então o livro é permeado por fatos e referência a esse assunto - aliás, Operação Impensável, é uma dessas referências.

Mas o que eu mais gostei é a pequena coletânea de piadas soviéticas da época do regime comunista, e ver como rir de si mesmo é uma característica humana que não depende de posição politica ou econômica. Como por exemplo essas:

Três prisioneiros estão num gulag na Sibéria contando como foram parar lá.
"Eu cheguei ao trabalho cinco minutos atrasado, então fui acusado de sabotagem."
"Eu cheguei cinco minutos mais cedo e fui acusado de espionagem."
"Eu cheguei na hora e fui acusado de possuir um relógio ocidental."

A professora pergunta à classe: "Quem são a mãe e o pai de vocês?"
Um aluno responde: "Minha mãe é a Rússia e o meu pai é Stálin."
"Muito bem!", retruca a professora. "E o que você gostaria de ser quando crescer?"
"Órfão."

Para terminar, o livro vai morno, mas o final é bem interessante. E completando o pacote: eu li por causa da personagem Lia, mas não é que apareceu uma Anna também? (nome da minha outra filha)






4 de julho de 2017

Big Brother

Editora Harper - Capa Milan Bozic
Eu gosto muito dos livros da Lionel Shriver, eles abordam temas controversos de maneira instigante, que nos tira da nossa posição de conforto em relação a eles. No caso de "Big Brother", o tema mais direto é a obesidade (e não a referência a 1984 como se pode associar), e também a questão dos relacionamentos familiares.

No livro, uma mulher perdeu o contato com o irmão há alguns anos, e fica sabendo que ele está sem emprego e levemente falido. Ela o convida para sua casa - onde ela mora com o marido e os enteados, e quando o busca no aeroporto tem o choque: ele está gigante, obeso, da companhia aérea decidir move-lo de cadeira de rodas.

A questão é que esse irmão  é um chato - metido a famoso músico de jazz - mas agora está numa pior e não consegue reconhecer. A questão é que ela também acha que está acima do peso, então ela toma uma decisão ousada para ajudar a o irmão: vai mudar com ele para um apartamento e vai fazer dieta com ele durante um ano inteirinho.

Dá para acreditar? Larga o marido, os enteados e vai se dedicar ao irmão que precisa de ajuda para melhorar de saúde - perder peso.

E aí, José, o que você faria no lugar? No que vai dar essa história?

O livro é muito bom e inquietante, como eu comentei no começo. Sempre vale a pena ler livros da Lionel Shriver.

27 de junho de 2017

O caminho estreito para os confins do norte

Editora Globo - Capa Bloco Gráfico

Um dos meus melhores livros do ano: O Caminho Estreito para os Confins do Norte, Richard Flanagan. Ganhou o Man Booker Prize - e eu estou percebendo que esses prêmios funcionam como atestado de qualidade sim.

A história é sobre um prisioneiro de guerra australiano que é levado para trabalhar numa ferrovia impossível na Ásia (veja Burma Death Railway), após ser preso pelos japoneses durante a II Guerra Mundial. O livro vai e volta no tempo, mostrando Dorrigo Evans antes e depois da guerra (achei um pouco confuso no começo), e sua narrativa é muito fria e cruel, cheia de detalhes sobre o estado miserável dos prisioneiros - fome, doença, cansaço, agressões. É de embrulhar o estômago, é de chorar.

Eu já li muitos livros sobre a II Guerra na Europa, mas esse traz uma perspectiva totalmente nova - o que os japoneses estavam fazendo, como eles eram, e o envolvimento da Austrália nesse conflito. Além disso, dá para ter uma perspectiva do que é uma Guerra Mundial mesmo: Japoneses aprisionando australianos na Síria e levando-os para trabalhar no Sião. 

Como todo bom livro, ele também fala de amor - como é possível falar de humanidade sem falar de amor? E que dádiva é ver o amor sendo descrito de uma maneira completamente nova e que mesmo assim faz tanto sentido. 

"Tenho uma amiga em Fern Tree que ensina piano. Ela é muito musical. Já eu tenho dificuldade de reconhecer as notas. Mas um dia ela estava me dizendo que cada sala tem uma nota. Basta encontrá-la. Ela começou a modular a voz, mais grave e mais aguda. E, de repente, uma nota retornou a nós, simplesmente ricocheteou das paredes e se ergueu do chão e preencheu o lugar com seu zumbido perfeito. Um som maravilhoso. Como se arremessássemos uma ameixa e recebêssemos de volta um pomar. Foi inacreditável, sr. Evans. Duas coisas completamente diferentes, uma nota e uma sala, encontrando uma com a outra. Soava... correto. Estou sendo ridícula? Acha que é isso que queremos dizer com amor, Sr. Evans? A nota que retorna a nós? Que nos encontra mesmo quando não queremos ser encontrados? que um dia encontramos alguém, e tudo que a pessoa é volta para nós numa estranha maneira de zumbir? Que se encaixa? Que é maravilhosa. Não estou conseguindo me explicar muito bem, não é?, disse ela. Não sou muito boa com as palavras. Mas era assim conosco. Jack e eu. Não nos conhecíamos muito. Não tenho certeza se gostava de tudo nele. Imagino que algumas coisas em mim o tenham irritado. Mas eu era aquela sala, e ele era aquela nota, e agora ele se foi. E tudo está em silêncio."

Eu realmente recomendo ler esse livro, para aprender um pouco mais de história, e para aprender muito mais de humanidade (a qualidade de ser humano, não a qualidade de ser bonzinho).

25 de junho de 2017

Short Stories from Hogwarts of Heroism, Hardship and Dangerous Hobbies

Pottermore

Eu ouvi 20 anos de Harry Potter?

Depois de terminada a saga, foi lançado um site chamado Pottermore, para se cadastrar, descobrir de que casa você é, e continuar "vivendo a aventura" Harry Potter, fazendo pequenas tarefas, se relacionando na comunidade virtual e etc. Acontece que eu nunca fui muito desse mundo virtual - eu sabia que a J. K. Rowling estava compartilhando "novidades" por ali, mais informações sobre esse universo incrível, mas ainda assim confesso que me senti um pouco *velha* para ter paciência para ficar brincando nesse site (sim, eu tentei - por uns 15 minutos).

Ano passado, para atingir uma população mais ampla (vide capitalizar) foram lançados pequenos livros virtuais com textos cursos sobre Hogwarts advindos de Pottermore - e o primeiro que eu li foi "Short Stories from Hogwarts of Heroism, Hardship and Dangerous Hobbies". 

Nesse, conhecemos mais sobre Minerva McGonagall (com certeza uma das minhas personagens preferidas - nos livros e nos filmes), Remus Lupin, Sybill Trelawne e Silvanus Kettleburn (o professor de Trato das Criaturas Mágicas antes de Hagrid).

É um leitura super rápida mesmo, mas obviamente interessante (apenas) para os super fãs da série. 

Bellefleur

Editora Ecco

Eu li "Bellefleur" para conhecer a autora Joyce Carol Oates. Eu não sabia muito bem onde eu estava me metendo, e aí em paralelo a uma leitura beeeeeeeem leeeeeeeeeeenta, eu descobri que esse é um romance da sua saga gótica. Aí que eu não tenho uma definição teórica sobre isso, mas, na prática, a história é bem sombria com toques surrealistas. 

Nesse livro, é contada a história da família Bellefleur, por décadas, de maneira não linear. Apesar da genealogia logo na primeira página, é difícil de acompanhar alguns pulos, até você pescar um nome e ir achar mais ou menos o ponto em que se está na cronologia. Embora muito seja bem verossímil, vira e mexe algo fantástico acontece: uma ave enorme captura e leva embora um bebê, um marido se revela um vampiro que bebe lentamente o sangue da esposa, um homem volta 50 anos depois de ter sido levado por uma enchente. 

A família é marcada por assassinatos, disputas e brigas, então não é mesmo um passeio no campo, apesar de ter alguns momentos bonitos e reflexivos, principalmente relacionados a histórias de amor. Pode-se dizer até que é um livro sobre relacionamentos amorosos, nas suas mais diversas formas.

Eu geralmente gosto disso - romance - mas achei o livro difícil de fluir, de se envolver. É interessante, mas não é gostoso. A autora é uma das candidatas frequentes ao Prêmio Nobel de Literatura, mas não pretendo encarar outro livro dela no médio prazo.

6 de junho de 2017

Eles eram muitos cavalos

Editora Companhia das Letras - Capa Kiko Farkas / Máquina Estúdio Roman Atamanczuk 

Título: Eles eram muitos cavalos
Autor: Luiz Ruffato

Motivo pelo qual comprei esse livro: sinopse indica que as histórias se passam no dia 9 de maio de 2000 (dia do meu aniversário).

Motivo pelo qual eu li esse livro até o final: teimosia.

Motivos pelo qual eu não gostei desse livro: muita modernidade.

É uma colagem de formatos de textos diferentes, incluindo pequenas cenas sobre personagens aleatórios destacados na cidade de São Paulo. Possivelmente é um retrato da cidade em si e da época, mas achei chato ficar pulando de um tipo de texto (inclui menu de jantar, lista de itens num quarto, santinho de são expedito) para dentro da cabeça de pessoas desconexas. Porque sim, muitas cenas retratam o que as pessoas estão pensando, e puxa, para acompanhar linhas confusas de pensamento, já bastam as nossas próprias.

21 de maio de 2017

Encontros com Jesus

Editora Vida Nova
"Encontros com Jesus" é um dos livros que mais me surpreendeu nos últimos tempos. Afinal, muitas dos encontros narrados aqui eu conheço desde criancinha - em casa, na escola, na igreja, já me foram lidos, relidos, relatados por diversas vezes. Mas Timothy Keller traz luz nova sobre eles, e não retorcendo os fatos, mas simplesmente contextualizando melhor, usando os termos originais, relacionando com a Bíblia em si - tudo com linguagem simples e direta.

É incrível como temos a tendência de ler algumas passagens bíblicas isoladamente, procurando significado em si mesmo - e achamos estranho quando algo fica não tão bem explicado, ou não faz sentido. A Bíblia é composta por vários livros, mas, para aqueles que creem, é um livro só, uma história contínua do relacionamento de Deus com a humanidade visando a salvação, e é assim que cada parte deveria ser lido.

Eu estou gostando cada vez mais de estudar a Bíblia por meio de autores bem recomendados, que iluminam o caminho. Recomendo fortemente esse livro para uma teologia prática, próxima e transformadora da nossa rotina.

The freedom of self forgetfulness

Editora 10 Publishing - Design por Diane Bainbridge

Timothy Keller é um grande pregador cristão, então faz sentido pegar seus melhores sermões e publica-los no formato de livros. É claro que isso resulta em textos curtos, como esse "A liberdade do auto-esquecimento" (numa tradução aproximada do título The Freedom of Self-Forgetfulness". Além disso, é possível encontrar a pregação em si na internet (eu não procurei) - então é realmente de se analisar se realmente vale a pena comprar o livro - mas que o texto é bom, certamente que sim.

Aqui, Tim Keller fala sobre esquecer a si mesmo, não se preocupar sem com baixa auto-estima, nem com ego inflamado, simplesmente tirar o foco de si e colocar o foco no que importa: Cristo, e o serviço à Igreja de Deus. A liberdade de esquecer a si mesmo é o que vai levar ao caminho da verdadeira alegria cristã (basicamente, o título e o subtítulo do livro), e nisso eu acredito mesmo.




16 de maio de 2017

The Miniaturist

Editora Ecco - Capa Allison Saltzman

Miniaturista é um livro que se passa na Holanda do século XVII, um cenário bem pouco usual. Estamos no burburinho da grande Amsterdã, com os burgueses e os protestantes, no ponto de virada do mundo medieval para o mundo moderno. Esse contexto histórico é um dos grandes atrativos do livro, e bem dirá seu ponto mais importante.

Na sinopse, uma jovem do interior casa-se com o burguês bem sucedido, e na estranheza da casa nova - onde também estão a cunhada e os empregados, ela ganha uma réplica da própria casa em miniatura, e verba para mobilia-la. A jovem faz encomendas, mas recebe peças misteriosas também - que indica segredos de seus novos familiares, a quem ela não conhece bem.

Ao que parece, era um costume da época essa brincadeira de casa de bonecas, e a história é realmente inspirada pela casa de miniatura que sobreviveu dezenas de anos e agora está em um museu, a casa de Bonecas de Petronella Oortman. (Petronella é também o nome da jovem dona da miniatura no livro):


A autora Jessie Burton parte desse objeto, mas não faz uma recriação histórica. Ela escreve fugindo da expectativa comum - apresenta o que poderia ser uma história de amor (a jovem do interior que casa com um burguês rico da cidade grande), apresenta um suspense envolvendo um pessoa misteriosa (quem é o miniaturista que entrega o que não é encomendado e sabe tanto da vida íntima das pessoas da casa), mas resolve discutir a posição feminina nessa sociedade, com diferentes personagem marcantes, com pitadas de assuntos religiosos, sexuais, financeiros, espirituais. 

Como eu mencionei, o que é mais interessante mesmo é esse retrato da época, tão difícil de ser retratada numa literatura de bestseller - esse livro ganhou prêmios e chegou a figurar em listas de livros populares. É um bom livro, que incomoda e não satisfaz, mas deixa uma forte impressão.

Para terminar, gostaria de deixar aqui uma citação que me chamou atenção por ser algo em que eu realmente acredito (em minha tradução):

"Eles se conhecem há muito tempo, e às vezes é difícil amar uma pessoa que você conhece tão bem. (...) Quanto você verdadeiramente passa a conhecer uma pessoa, Nella - quando você vê por baixo dos gestos doces, os sorrisos - quando você vê a raiva e o medo lamentável que cada um de nós esconde - então o perdão é tudo. Nós todos necessitamos desesperadamente de perdão."

15 de maio de 2017

The Return of Sherlock Holmes

Editora Wilco Publishing House

Eu comprei os três volumes de histórias do Sherlock Holmes há muitos anos atrás - 7 - e eu fiquei assim, guardando o último para ler depois para ver se não acabava. Mas acabou e foi muito bom! "The return of Sherlock Holmes" já mostra nosso amado personagem no auge da fama, escolhendo casos cada vez mais intrincados, no limite da criatividade do autor.

O que eu gostei dessa vez foi relacionar com a série da BBC - Sherlock - que fez um trabalho maravilhoso de adaptar as obras para a atualidade. É interessante ver como eles conseguiram preservar a essência dos personagens, e souberam ousar de maneira coerente com o universo fantástico de Arthur Conan Doyle. 

Pronto, gastei vários adjetivos como elogios - e mais um para terminar: isso é entrentenimento de qualidade!

14 de maio de 2017

The Message of Romans

Editora IVP Academic - Design Paul Airy

O livro de Romanos na Bíblia tem a fama de tratado teológico. Um livro denso, complexo, profundo.

John Stott tem a fama de grande pregador, um dos maiores teólogos contemporâneos (embora falecido há pouco tempo). 

Então, "A mensagem dos Romanos" prova que o livro da Bíblia é realmente denso e profundo, mas pode ser simples de entender.

Eu comprei a versão digital no kindle (mais barata, mais fácil de eu carregar por aí) para preparar aulas para a minha igreja, mas a versão traduzida ainda é vendida pela Editora Ultimato - e eu recomendo para quem quiser conhecer mais sobre esse livro e o significado da salvação para os cristãos reformados.

13 de maio de 2017

Guia de uma ciclista em Kashgar

Editora Intrínseca - Capa Sarah Greeno

Esse livro eu escolhi primeiro pela capa - a combinação de cores e um desenho delicado. Depois pelo título - Guia de uma ciclista em Kashgar: uma ciclista? onde fica Kashgar? E, em terceiro, pela descrição breve da história, que cruza uma inglesa na Londres atual e outra mulher, há mais de 100 anos, numa missão cristã na oriente.

Kashgar, é uma cidades mais ocidentais (geograficamente falando) da China, perto do Uzbesquistão. No livro, Evangeline, sua irmã e uma amiga tem sua viagem missionária interrompida nessa cidade a ajudar o parto de uma adolescente - que morre, e as pessoas querem julga-las culpadas. Estamos na década de 20, e são 3 mulheres jovens inglesas viajado sozinhas pela Ásia. É sempre algo que não acharíamos que fosse possível, mas deveria ser (não em grande escala, claro, mas ainda assim possível).

Ao mesmo tempo, conhecemos Frieda, uma mulher solitária em Londres que ajuda um árabe chamado Tayeb, provavelmente ilegal e sem onde morar - e cá estamos no assunto atual de imigrantes e refugiados.

O livro de Suzanne Joinson é realmente interessante por unir personagens femininas fortes e não usuais, sem ser piegas ou combativo. 

2 de maio de 2017

Tequila and Tea Bags

Editora Createspace

De vez em quando, rola um livrinho bobo (e gratuito) para desestressar por aqui. A bola da vez foi Tequila & Tea Bags, de Laura Barnard. A garota queria ir para o Caribe com a amiga (vide: tequila), mas foi despachada para a casa da prima no interior da Inglaterra (vide: saquinhos de chá), e todas as pessoas com mais de 20 anos se comportam como adolescentes - hormônios aflorados, sexo, drama drama drama.


15 de abril de 2017

Cenas da Vida na Aldeia

Editora Companhia das Letras - capa warrakloureiro

Esse livro entrega exatamente o que avisa no título: Cenas da Vida na Aldeia. Cada capítulo (ou seria um conto?) acompanha um personagem dessa aldeia, em alguma crise ou conflito, mas que não passa de uma cena. Amós Oz nos deixa com aquela sensação de quero mais, quero saber o que aconteceu, e agora? Faz parte do seu talento de nos envolver tanto com aquela história, em poucas páginas, que o fim - quase abrupto - é triste.

Outro aspecto interessante é mergulhar nessa aldeia, no interior de Israel. Um mundo tão distante do nosso aqui no Brasil, culturalmente falando. Muitas vezes as nossas referências de judeus são o holocausto, a comunidade judia nos Estados Unidos, a guerra diária com os palestinos, e ali está todo um país com suas particularidades, sua rotina, sua vida que segue, além dos grandes fatos históricos.

28 de março de 2017

Dubliners

Editora Wisehouse Classics - Capa Rudolph Buchner
Irlanda é um país tão pequenininho, e nos deu James Joyce, e toda sua riqueza de observação humana. Em Dublinenses (Dubliners), cada história é um pequeno conto, focado em indivíduos totalmente diferentes - gênero, idade, circunstâncias, sem relação entre si.

Eu achei interessante, e eu sei que é bom - boa literatura, realmente boa literatura - mas não provocou sentimentos mais profundos, uma vontade de ler mais do autor.

Eu já li Ulisses - no auge do tempo livro da adolescência - e só achei muito louco, ou seja, talvez tivesse sido precipitada na minha busca pelos clássicos. Agora, mais velha madura, coloco um "ok" novamente no autor, e bola para frente, que há muito ainda por ler.

19 de março de 2017

The Awakening

Editora Arcade Publishing - Quadro da capa por Auguste Reinor

Eu comecei a ler "The Awakening" (O Despertar) despretensiosamente. Num balneário a beira mar, na região de New Orleans, conhecemos Edna Pontellier, uma mulher jovem, casada, com filhos pequenos (mas não bebês). A medida que a leitura foi fluindo, fica nítido: é um livro feminista! Fui atrás de mais informações: escrito por Kate Chopin no final do século XIX, ela também foi contra o fluxo de seus contemporâneos (e, é claro, não teve muito sucesso por conta disso).

Assim como em outros romances da mesma época, a crise é a traição feminina - ou melhor, o fato da esposa se apaixonar por outro (Madame Bovary, Luísa), mas Kate Chopin vai além (e o fato de ela ser mulher faz toda diferença). O despertar de Edna é um processo de auto-conhecimento, como mulher, indivíduo, e como isso se reflete no seu papel de esposa e mãe. 

Os costumes mudaram, a moral mudou, a liberdade da mulher mudou nesses últimos 120 anos, mas o a busca por identidade continua sendo algo pessoal e intransferível, um caminho curto e sem percalços para algumas, para outras mais cheio de voltas e obstáculos. Uma busca que às vezes não se completa, mas é renovada a medida que o tempo passa - e se passa de jovem para adulta, de solteira para esposa, de filha para mãe, e então para avó...

A cada dia, um novo despertar e renovar-se.

15 de março de 2017

Agamemnon's Daugther

Editora Arcade Publishing

No começo dessa edição de "A filha de Agamemnon", há notas tanto de tradução como sobre a história principal dessa coletânea, o que ajuda a entender o contexto de Ismail Kadare, um autor albanês, que chegou a ser proibido em seu país dado os seus textos políticos. A história em questão escapou por ter sido primeiramente retratada na Alemanha - em pleno regime nazista - enquanto na verdade, ele contava da sua realidade em uma ditadura.

No entanto, a história que mais me interessou foi "The Blinding Order" (algo como a lei da cegueira, ou comando da cegueira), em que, depois de alguns fatos tristes (morte, acidente, doença de autoridades), o governo identifica que a causa é o "mau olhado", e determina que as pessoas que estão "emitindo" esse mau olhado devem ser cegadas, com uma compensação financeira do estado. Caso a pessoa se entregue, ela será cegada e sua compensação será um valor maior. São definidos fiscais para executar essa lei - identificar e cegar as pessoas causadoras do mau olhado. As pessoas discutem o que é critério para identificar quem emite mau olhado - mas não muito abertamente, caso pensem que eles estão tentando disfarçar. Os oficiais do governo afirmam que há critérios claros, mas não abertos. O narrador se aproxima de uma família, cuja filha é noiva de um fiscal dessa ordem, e nos mostra o impacto ali, nas pessoas comuns.

Eu gosto muito dessas histórias fantásticas que, se analisar bem, podem não ser tão fantásticas assim, e retratam tão bem aspectos da nossa sociedade, que às vezes nem é bom comentar.

21 de fevereiro de 2017

A mamãe é rock

Editora BelasLetras - Capa Celso Orlandin Jr.

Na mesma toada do O Papai é Pop, Ana Cardoso, a esposa do Marcos Piangers também fez um livro de crônicas sobre sua maternidade real - "A Mamãe é Rock". A sinopse, ao meu ver, já diz tudo:

"Aqueles que leram O papai é pop estão convidados a conhecer o lado mais in/tenso da experiência. A mamãe é rock é um recorte sem filtro dos divertidos e comoventes malabarismos que um casal moderno faz todos os dias para criar suas filhas."

Embora os pais estejam cada dia mais ativos na criação dos filhos, ocupando seu papel de pai e não de "ajudante da mãe" como dizem por aí, não dá para negar que as mães, talvez até por sua capacidade multitarefa ou por se identificarem / se preocuparem com seu papel de mãe 100% do tempo, vivenciam o lado mais intenso e mais tenso do "parenting" (ou maternidade / paternidade).

Eu gostei de ver o outro lado dessa família (não que família tenha só dois lados), às vezes ver como a história na boca de um e na boca de outro fica diferente - não que alguém esteja mentindo, mas são perspectivas diferentes. 

A Ana Cardoso logo no prefácio já se prepara para o clássico julgamento entre mães, com a frase: "Para as mães, espero que se identifiquem ou que, ao menos, entendam melhor o meu subgrupo." E depois de ler o livro todo, eu acho que faço parte do subgrupo dela mesmo, hahahaha, ou algo bem ali perto. Ana, quer ser minha amiga?


19 de fevereiro de 2017

O Papai é Pop

Editora BelasLetras - Capa Celso Orlandin Jr.

Meu marido me mostrou um vídeo sobre paternidade do Marcos Piangers (ele é pop mesmo, está no facebook, na globo, no TED, talvez você já o tenha visto por aí), e lá pelas tantas ele disse que publicou um livro e o lucro vai para crianças carentes, porque ele não precisa ficar rico. Eu já gosto de comprar livro - se é de alguém legal e ainda vai ajudar alguém, não precisa falar duas vezes. Eu comprei na hora o ebook na Amazon "O Papai é Pop", super baratinho, e li mais rapidinho ainda.

O livro é ótimo, bem humorado, com passagens sensíveis, de alguém criado pela mãe sem conhecer o pai, mas que quer ser o melhor pai possível para suas duas filhas, Anita e Aurora. Lendo o livro, dá para entender que a família valoriza mesmo o ficar junto, a diversão em família, e não ficar rico mesmo. É um sopro de ar fresco nesse mundo que anda tão consumista, e com o coração colocado em lugares tão errados. É centralizar de volta no que realmente importa, a família, seus valores, e não na correria e na cobrança de alcançar sempre mais. De uma maneira bem divertida. 

29 de janeiro de 2017

Estação das Chuvas

Editora Língua Geral Livros  - Capa Rico Lins
José Eduardo Agualusa é um autor angolano de renome internacional - um dos seus livros traduzidos foi indicado ao Man Booker Prize International ano passado. Eu já tinha ouvido falar sobre ele antes, e por isso comprei "Estação das Chuvas" num sebo ano passado, sem nem ver sinopse nem nada. O livro é sobre uma escritora angolana, Lídia do Carmo Ferreira - sua história e suas opiniões, dadas em entrevista ao narrador. Mas mais do que isso é um panorama da história da Angola no século XX, principalmente os movimentos políticos de independência e lutas pelo poder.

No entanto, a história é não linear, e são capítulos curtos que vão trazendo um episódio ou outro da Lídia, além de fatos e pessoas da história do país, fazendo uma colcha de retalhos. Para mim, que não tenho noção nenhuma da história angolana, não tenho as referências das pessoas de lá, realmente me perdi no livro. 

Achei tão diferente de Meio Sol Amarelo que através dos personagens ficcionais nos aproxima do conflito - aqui, há tantas siglas e lutas e mudanças de lado, que foi depois de procurar informações sobre o livro que eu descobri que ele é sobre a escritora - que realmente existiu - e não sobre os conflitos do país.

Outro agravante é a quantidade imensa de palavras locais, algumas notas - outras não, e mesmo quando "traduzidas", a falta de contexto prejudica o entendimento. Talvez uma edição com mais notas e comentários seja mais fácil de ler e compreender do que essa, que dificultou até apreciar o autor.

28 de janeiro de 2017

Enclausurado

Editora Companhia das Letras - Capa Cláudia Espínola de Carvalho

Nós já conhecemos narradores mortos - mas certamente Enclausurado é o primeiro livro de projeção internacional em que o narrador é um feto. Isso mesmo. Uma criança, antes de nascer. Inteligentíssima. Transtornada por saber que sua mãe, a quem já ama, claro, está planejando assassinar seu pai, junto com o amante.

Ian McEwan escreve uma obra incrível - incrível, literal e figurativamente - em torno de um tema bem banal, o crime passional. O narrador traz o inusitado e subverte aquela perspectiva do bebê que não pensa, só sente, e é tão inocente e tão ignorante do mundo. Esse feto, enclausurado, gosta de vinho e conhece os diferentes sabores. Sabe de política internacional, a crise europeia, novos empreendimentos, etc - baseado em diversos podcasts que a mãe gosta de ouvir.

Eu me surpreendo como a informação está tão mais disponível para a geração atual, que a um clique via google ou youtube pode ser tornar especialista em assuntos tão diversificados como vinho, bicho-preguiça, viagens rodoviárias no Alasca, ou o sistema prisional dinamarquês. Eu sou da última geração que estudava em enciclopédia e se quisesse saber mais detalhe, procurava livros sobre o tema (ou recortes de jornais que a minha mãe colecionava, com as perspectivas atuais sobre assuntos importantes). 

Pode ser surpreendente, mas a carga de informação que um feto pode ter acesso só ao ouvir esse tipo de conteúdo que chega via podcast, vídeo, TED, não é nada inconcebível. Com trocadilho intencional.

22 de janeiro de 2017

Mundo sem Fim

Editora Arqueiro - Capa Fiction

Em "Mundo sem Fim", Ken Follet começa com 4 personagens crianças, e os acompanha até a velhice, numa pequena cidade da Inglaterra que gira em torno do Priorado, onde vivem monges e freiras. Há um casal principal, Caris e Merthin, e várias reviravoltas sociais e políticas que o impedem de ficar juntos, e a gente vai torcendo por eles, mas o que mais vale a pena é o retrato histórico da época.

Há o clero, há a burguesia emergente, há a nobreza, e os conflitos e cooperação entre eles. Merthin e Caris são particularmente inteligentes, mas há uns burros e astutos, que conseguem chegar tão longe que dá até raiva.

No meio da história, estoura a Peste Negra, e é impressionante o efeito na população e na vida diária. São milhares de mortes, com um impacto econômico incrível. Difícil se colocar na mesma situação, ou trazer para os dias atuais. Quero crer que uma doença que mata em 3-5 dias e se alastra naquela velocidade não pode acontecer novamente.

Por fim, é interessante ver muitas mulheres em posição de liderança, não só como Madre Superiora, mas dirigindo comércio e a cidade. Pensei que poderia ser um exagero, uma pitada moderna demais, mas depois lembrei que é o país que teve uma rainha no século XVI. Parece que as mulheres só quiseram independência e respeito nos últimos 50 anos, mas aposto que muitas foram pioneiras em todos os lugares do mundo, nessas centenas de anos de história. E não poucas, mas realmente mais do que imaginamos (e menos do que gostaríamos).