15 de abril de 2017

Cenas da Vida na Aldeia

Editora Companhia das Letras - capa warrakloureiro

Esse livro entrega exatamente o que avisa no título: Cenas da Vida na Aldeia. Cada capítulo (ou seria um conto?) acompanha um personagem dessa aldeia, em alguma crise ou conflito, mas que não passa de uma cena. Amós Oz nos deixa com aquela sensação de quero mais, quero saber o que aconteceu, e agora? Faz parte do seu talento de nos envolver tanto com aquela história, em poucas páginas, que o fim - quase abrupto - é triste.

Outro aspecto interessante é mergulhar nessa aldeia, no interior de Israel. Um mundo tão distante do nosso aqui no Brasil, culturalmente falando. Muitas vezes as nossas referências de judeus são o holocausto, a comunidade judia nos Estados Unidos, a guerra diária com os palestinos, e ali está todo um país com suas particularidades, sua rotina, sua vida que segue, além dos grandes fatos históricos.

28 de março de 2017

Dubliners

Editora Wisehouse Classics - Capa Rudolph Buchner
Irlanda é um país tão pequenininho, e nos deu James Joyce, e toda sua riqueza de observação humana. Em Dublinenses (Dubliners), cada história é um pequeno conto, focado em indivíduos totalmente diferentes - gênero, idade, circunstâncias, sem relação entre si.

Eu achei interessante, e eu sei que é bom - boa literatura, realmente boa literatura - mas não provocou sentimentos mais profundos, uma vontade de ler mais do autor.

Eu já li Ulisses - no auge do tempo livro da adolescência - e só achei muito louco, ou seja, talvez tivesse sido precipitada na minha busca pelos clássicos. Agora, mais velha madura, coloco um "ok" novamente no autor, e bola para frente, que há muito ainda por ler.

19 de março de 2017

The Awakening

Editora Arcade Publishing - Quadro da capa por Auguste Reinor

Eu comecei a ler "The Awakening" (O Despertar) despretensiosamente. Num balneário a beira mar, na região de New Orleans, conhecemos Edna Pontellier, uma mulher jovem, casada, com filhos pequenos (mas não bebês). A medida que a leitura foi fluindo, fica nítido: é um livro feminista! Fui atrás de mais informações: escrito por Kate Chopin no final do século XIX, ela também foi contra o fluxo de seus contemporâneos (e, é claro, não teve muito sucesso por conta disso).

Assim como em outros romances da mesma época, a crise é a traição feminina - ou melhor, o fato da esposa se apaixonar por outro (Madame Bovary, Luísa), mas Kate Chopin vai além (e o fato de ela ser mulher faz toda diferença). O despertar de Edna é um processo de auto-conhecimento, como mulher, indivíduo, e como isso se reflete no seu papel de esposa e mãe. 

Os costumes mudaram, a moral mudou, a liberdade da mulher mudou nesses últimos 120 anos, mas o a busca por identidade continua sendo algo pessoal e intransferível, um caminho curto e sem percalços para algumas, para outras mais cheio de voltas e obstáculos. Uma busca que às vezes não se completa, mas é renovada a medida que o tempo passa - e se passa de jovem para adulta, de solteira para esposa, de filha para mãe, e então para avó...

A cada dia, um novo despertar e renovar-se.

15 de março de 2017

Agamemnon's Daugther

Editora Arcade Publishing

No começo dessa edição de "A filha de Agamemnon", há notas tanto de tradução como sobre a história principal dessa coletânea, o que ajuda a entender o contexto de Ismail Kadare, um autor albanês, que chegou a ser proibido em seu país dado os seus textos políticos. A história em questão escapou por ter sido primeiramente retratada na Alemanha - em pleno regime nazista - enquanto na verdade, ele contava da sua realidade em uma ditadura.

No entanto, a história que mais me interessou foi "The Blinding Order" (algo como a lei da cegueira, ou comando da cegueira), em que, depois de alguns fatos tristes (morte, acidente, doença de autoridades), o governo identifica que a causa é o "mau olhado", e determina que as pessoas que estão "emitindo" esse mau olhado devem ser cegadas, com uma compensação financeira do estado. Caso a pessoa se entregue, ela será cegada e sua compensação será um valor maior. São definidos fiscais para executar essa lei - identificar e cegar as pessoas causadoras do mau olhado. As pessoas discutem o que é critério para identificar quem emite mau olhado - mas não muito abertamente, caso pensem que eles estão tentando disfarçar. Os oficiais do governo afirmam que há critérios claros, mas não abertos. O narrador se aproxima de uma família, cuja filha é noiva de um fiscal dessa ordem, e nos mostra o impacto ali, nas pessoas comuns.

Eu gosto muito dessas histórias fantásticas que, se analisar bem, podem não ser tão fantásticas assim, e retratam tão bem aspectos da nossa sociedade, que às vezes nem é bom comentar.

21 de fevereiro de 2017

A mamãe é rock

Editora BelasLetras - Capa Celso Orlandin Jr.

Na mesma toada do O Papai é Pop, Ana Cardoso, a esposa do Marcos Piangers também fez um livro de crônicas sobre sua maternidade real - "A Mamãe é Rock". A sinopse, ao meu ver, já diz tudo:

"Aqueles que leram O papai é pop estão convidados a conhecer o lado mais in/tenso da experiência. A mamãe é rock é um recorte sem filtro dos divertidos e comoventes malabarismos que um casal moderno faz todos os dias para criar suas filhas."

Embora os pais estejam cada dia mais ativos na criação dos filhos, ocupando seu papel de pai e não de "ajudante da mãe" como dizem por aí, não dá para negar que as mães, talvez até por sua capacidade multitarefa ou por se identificarem / se preocuparem com seu papel de mãe 100% do tempo, vivenciam o lado mais intenso e mais tenso do "parenting" (ou maternidade / paternidade).

Eu gostei de ver o outro lado dessa família (não que família tenha só dois lados), às vezes ver como a história na boca de um e na boca de outro fica diferente - não que alguém esteja mentindo, mas são perspectivas diferentes. 

A Ana Cardoso logo no prefácio já se prepara para o clássico julgamento entre mães, com a frase: "Para as mães, espero que se identifiquem ou que, ao menos, entendam melhor o meu subgrupo." E depois de ler o livro todo, eu acho que faço parte do subgrupo dela mesmo, hahahaha, ou algo bem ali perto. Ana, quer ser minha amiga?


19 de fevereiro de 2017

O Papai é Pop

Editora BelasLetras - Capa Celso Orlandin Jr.

Meu marido me mostrou um vídeo sobre paternidade do Marcos Piangers (ele é pop mesmo, está no facebook, na globo, no TED, talvez você já o tenha visto por aí), e lá pelas tantas ele disse que publicou um livro e o lucro vai para crianças carentes, porque ele não precisa ficar rico. Eu já gosto de comprar livro - se é de alguém legal e ainda vai ajudar alguém, não precisa falar duas vezes. Eu comprei na hora o ebook na Amazon "O Papai é Pop", super baratinho, e li mais rapidinho ainda.

O livro é ótimo, bem humorado, com passagens sensíveis, de alguém criado pela mãe sem conhecer o pai, mas que quer ser o melhor pai possível para suas duas filhas, Anita e Aurora. Lendo o livro, dá para entender que a família valoriza mesmo o ficar junto, a diversão em família, e não ficar rico mesmo. É um sopro de ar fresco nesse mundo que anda tão consumista, e com o coração colocado em lugares tão errados. É centralizar de volta no que realmente importa, a família, seus valores, e não na correria e na cobrança de alcançar sempre mais. De uma maneira bem divertida. 

29 de janeiro de 2017

Estação das Chuvas

Editora Língua Geral Livros  - Capa Rico Lins
José Eduardo Agualusa é um autor angolano de renome internacional - um dos seus livros traduzidos foi indicado ao Man Booker Prize International ano passado. Eu já tinha ouvido falar sobre ele antes, e por isso comprei "Estação das Chuvas" num sebo ano passado, sem nem ver sinopse nem nada. O livro é sobre uma escritora angolana, Lídia do Carmo Ferreira - sua história e suas opiniões, dadas em entrevista ao narrador. Mas mais do que isso é um panorama da história da Angola no século XX, principalmente os movimentos políticos de independência e lutas pelo poder.

No entanto, a história é não linear, e são capítulos curtos que vão trazendo um episódio ou outro da Lídia, além de fatos e pessoas da história do país, fazendo uma colcha de retalhos. Para mim, que não tenho noção nenhuma da história angolana, não tenho as referências das pessoas de lá, realmente me perdi no livro. 

Achei tão diferente de Meio Sol Amarelo que através dos personagens ficcionais nos aproxima do conflito - aqui, há tantas siglas e lutas e mudanças de lado, que foi depois de procurar informações sobre o livro que eu descobri que ele é sobre a escritora - que realmente existiu - e não sobre os conflitos do país.

Outro agravante é a quantidade imensa de palavras locais, algumas notas - outras não, e mesmo quando "traduzidas", a falta de contexto prejudica o entendimento. Talvez uma edição com mais notas e comentários seja mais fácil de ler e compreender do que essa, que dificultou até apreciar o autor.