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19 de dezembro de 2021

Os Últimos de Nossos Pais

 

Editora Intrínseca

Mais um livro sobre a II Guerra Mundial, com um ângulo diferente: franceses são recrutados pelo Serviço Secreto Britânico para serem agentes secretos - eles passam por treinamentos intensos, tornam-se muitos amigos, quase uma família, e são encaminhados para missões separadas. 

É guerra, então obviamente não vai ser um livro feliz - embora eu realmente tenha torcido pelo contrário. Ainda por cima, lá pela metade, diferentes linhas da história se cruzam de uma forma que parece um pouco forçada - mas pode ser por causa do estilo rebuscado que o autor Joël Dicker usa de vez em quando.

Para quem gosta do tema, pode ser interessante - e é uma leitura rápida.

17 de dezembro de 2018

I Capture the Castle

Editora St Martin Press

Esse livro está na lista dos 100 livros mais amados da BBC e dessa vez não decepcionou - é um livro adolescente? Sim. É um livro de época? Sim. Mas é muito bem escrito e não inocente ou ingênuo deamis. "I Caputre the Castle" é escrito como o diário de uma garota que vive num castelo, que seu pai arrendou numa época de prosperidade e agora, sem renda, não tem nem como manter. Ela tem uma irmã e um irmão, uma tia chata, e quando aparecem possíveis pretendentes ricos, é impossível não lembrar das irmãs Bennet, mas a história se desenrola completamente de outra forma, e não é uma tentativa forçada de se diferenciar. É o mesmo cenário inglês, mas uma época um pouco mais atual, e isso se reflete no posicionamento das jovens (e até da madrasta, que é a segunda esposa).

Eu gostei desse livro da Dodie Smith, um entretenimento fácil e leve, e fui procurar outros livros da autora, e não é que sua obra mais famosa é 101 Dálmatas? Que tem outra pegada, literalmente...



18 de dezembro de 2017

A viúva Simões

Domínio Público

No livro História Bizarra da Literatura Brasileira, a autora brasileira Júlia Lopes de Almeida é citada como alguém que escrevia muito bem, era popular, e participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, mas seu nome foi excluído da primeira lista de membros por ser mulher - eles deliberadamente formaram um grupo só de homens (e considerando o tanto de político que fez e faz parte da ABL, realmente não se pode considerar a entrada na Academia como meritocracia).

Como ela é uma escritora do final do século XIX, seus livros já estão em domínio público, e disponíveis gratuitamente no formato de ebook. Eu escolhi para conhecê-a o livro "A viúva Simões", história de uma viúva de trinta e poucos anos, com a filha adolescente, que reencontra um amor do passado. É um dramalhão, aquelas histórias de novela, que a gente sabe muito bem aonde vai chegar, e fazem um sucesso imenso com as multidões. Não é Machado de Assis ou José de Alencar, mas é um livro bem escrito, característico do estilo romantismo.

É muito bom saber que a literatura brasileira nos surpreende com uma autora feminina de quase 140 anos, embora sejam poucas ainda hoje.

25 de novembro de 2017

Cold Comfort Farm

Editora Stellar Classics

"Cold Comfort Farm" é um livro que parece aqueles romances bucólicos ingleses, mas a protagonista, Flora, é meio estranha. Quando os pais morrem, uma amiga a aconselha a começar a trabalhar. No entanto, ela decide: vou escrever cartas para os meus parentes, afinal, alguém deve poder me receber em sua casa para que eu não tenha que trabalhar pelo meu sustento.

Além de ser um golpe no estômago do feminismo, achei muito estranha esse candura toda de expressão, então fui procurar sobre o livro na internet e descobri que se trata de uma paródia da vida rural romantizada da época - Stella Gibbons publicou o livro em 1932. O livro anda nessa toada, exagerando e criticando todos os arquétipos.

Eu achei interessante, mas talvez por não entender as "piadas da época", não foi tão engraçado - ou é como dizem, o humor inglês é diferente mesmo.

16 de maio de 2017

The Miniaturist

Editora Ecco - Capa Allison Saltzman

Miniaturista é um livro que se passa na Holanda do século XVII, um cenário bem pouco usual. Estamos no burburinho da grande Amsterdã, com os burgueses e os protestantes, no ponto de virada do mundo medieval para o mundo moderno. Esse contexto histórico é um dos grandes atrativos do livro, e bem dirá seu ponto mais importante.

Na sinopse, uma jovem do interior casa-se com o burguês bem sucedido, e na estranheza da casa nova - onde também estão a cunhada e os empregados, ela ganha uma réplica da própria casa em miniatura, e verba para mobilia-la. A jovem faz encomendas, mas recebe peças misteriosas também - que indica segredos de seus novos familiares, a quem ela não conhece bem.

Ao que parece, era um costume da época essa brincadeira de casa de bonecas, e a história é realmente inspirada pela casa de miniatura que sobreviveu dezenas de anos e agora está em um museu, a casa de Bonecas de Petronella Oortman. (Petronella é também o nome da jovem dona da miniatura no livro):


A autora Jessie Burton parte desse objeto, mas não faz uma recriação histórica. Ela escreve fugindo da expectativa comum - apresenta o que poderia ser uma história de amor (a jovem do interior que casa com um burguês rico da cidade grande), apresenta um suspense envolvendo um pessoa misteriosa (quem é o miniaturista que entrega o que não é encomendado e sabe tanto da vida íntima das pessoas da casa), mas resolve discutir a posição feminina nessa sociedade, com diferentes personagem marcantes, com pitadas de assuntos religiosos, sexuais, financeiros, espirituais. 

Como eu mencionei, o que é mais interessante mesmo é esse retrato da época, tão difícil de ser retratada numa literatura de bestseller - esse livro ganhou prêmios e chegou a figurar em listas de livros populares. É um bom livro, que incomoda e não satisfaz, mas deixa uma forte impressão.

Para terminar, gostaria de deixar aqui uma citação que me chamou atenção por ser algo em que eu realmente acredito (em minha tradução):

"Eles se conhecem há muito tempo, e às vezes é difícil amar uma pessoa que você conhece tão bem. (...) Quanto você verdadeiramente passa a conhecer uma pessoa, Nella - quando você vê por baixo dos gestos doces, os sorrisos - quando você vê a raiva e o medo lamentável que cada um de nós esconde - então o perdão é tudo. Nós todos necessitamos desesperadamente de perdão."

7 de junho de 2016

O Poderoso Chefão

Editora Record - Capa Leonardo Iaccarino

Paradoxalmente, eu não consigo assistir filmes violentos (eu literalmente fecho os olhos), mas ler até que rola (mas eu me permito pular algumas linhas das partes mais sangrentas). Sendo assim, foi ótimo ler O Poderoso Chefão, um livro realmente espetacular, daqueles de ficar órfã no fim (no entanto, não gostei da sinopse das continuações). Deu para entender porque tanta gente adora os filmes (embora eu tenha desistido de assistir no primeiro - era muita gente apanhando e morrendo para a história fazer sentido nas partes que eu conseguia assistir, hahaha).

Mário Puzo retratou de forma admirável o que foi a máfia italiana nos Estados Unidos, com direito a explicação das origens. Dá para ter um vislumbre da realidade italiana nas primeiras décadas do século passado também, já que tem um trecho da história que se passa lá (e mesmo sendo ficção, é possível imaginar o que era realidade de tudo o que foi contado).

Um dos pontos interessantes é como Don Corleone se tornou poderoso - é um pouco do que ele era capaz de fazer, e muito de ter a postura correta, e conseguir arrebanhar seguidores fiéis (até por isso, o nome original - The Godfather / O Padrinho, é melhor do que o nome brasileiro - ele não aceitaria ser chamado de O Poderoso Chefão, embora ele o fosse sim e soubesse disso). 

É preciso muita inteligência e capacidade de liderança para conseguir a quantidade certa de temor - a base de recompensa e ameça - que mantenha os seguidores obedientes sem que eles se considerem merecedores de assumir o poder, ou mais privilégios (o que acontece, claro). 

Dá para imaginar o que não tem de Don Corleone no cenário do crime brasileiro - com requinte menor ou igual ao original...

20 de setembro de 2014

The Luminaries

Editora Granta

Eu encontrei esse livro na mão de uma pessoa em Manaus e era um pequeno tijolo - então eu anotei o nome e comprei depois no kindle. No meio tempo, descobri que a autora Eleanor Catton foi a mais jovem ganhadora do prêmio Man Book exatamente com esse livro, seu segundo, The Luminaries. 

A princípio, ele parece interessante - uma história no século XIX na Nova Zelândia, num pequeno vilarejo que gira em torno da corrida pelo ouro. Há apenas três mulheres: uma prostituta, a esposa do chefe da prisão, e a dona de uma casa de entretenimento, que chega depois. Cada um dos personagens masculinos estabelece uma relação diferente com essas mulheres, principalmente a primeira, Anna Wetherell. Engraçado que, em pensamento, muitos gostam dela, e querem protege-la ou cuidar dela, mas suas atitudes não condizem com isso.

O fluxo da narrativa é um pouco confuso - são vários personagens com histórias paralelas, que vão se entrelaçando, ou já estavam entrelaçadas, porque muito é contado em flashback, de até um ano antes do início da história, quando doze homens se encontram para discutir os eventos das duas semanas, desde a noite quando um ermitão morre, Anna foi encontrada na rua entorpecida por ópio, um político chega para fazer campanha, e o jovem de grande sucesso nas minas some.

A trama toda é muito bem feita, mas eu pensava: porque ela não escreveu um pouco menos?  Para que tanto flashback? Realmente não consegui apreciar o estilo, o que seria esperado num livro ganhador de prêmio literário. 

Para terminar, logo no começo, ela fala que no livro são usados os signos como deveriam estar no céu no século XIX, e não agora, algo assim e cada capítulo tem um título do tipo "Mercúrio em Sagitário", "Saturno em Libra" que deve fazer sentido só para os iniciados no assunto...      

25 de março de 2014

1Q84

Editora Vintage International - Capa Chip Kidd

Se alguém quiser liberdade criativa total, é só escrever sobre um mundo que não existe. Cria-se um mundo, e ali é possível ditar as regras, as leis da natureza, a história prévia (vide Guerra dos Tronos). Desafio mesmo é trazer a fantasia, o fantástico, para dentro desse mundo e misturar uma sensação de estranhamento e verossimilhança.

Haruki Murakami faz isso com o tijolinho que é 1Q84 - a história de Aomame e Tengo numa outra dimensão, vamos colocar dessa forma, em um mundo que tem duas luas e alguns seres não tão humanos assim. Assim, a personagem principal - que se vê nesse mundo sutilmente distorcido - coloca uma indagação no ano em que se encontra - 1?84 ou 1questão84 ou 1Q84. 

E sim, a história se passa no Japão em 1984, claramente dialogando com 1984 de George Orwell (a origem do BBB, lembrem-se!). Gostei de voltar no tempo e ir para um lugar completamente diferente - são 30 anos atrás, mas como o mundo mudou!

O livro é envolvente, mas não é daqueles que não dá para largar (vide que eu demorei 2 meses, com outras leituras e outros afazeres para termina-lo). Como estamos falando de mais de 1100 páginas (no Brasil, foi publicado em 3 volumes), é para quem está disposto mesmo.

23 de dezembro de 2012

The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society

Editora Dell - Capa Roberto de Vicq de Cumptich
"A Sociedade Literária e da Torta de Casca de Batata de Guernsey" é  um retrato maravilhoso de uma pequena comunidade pós a ocupação alemã da ilha de Guernsey no canal da Mancha. A história é tão singular e os personagens, carsmáticos, que você deseja que eles existam, e seus filhos e netos estejam vivos por aí até hoje como uma lembrança viva do que se passou.
 
O romance é espitolar, ou seja, tudo o que lemos são as cartas que os personagens trocam, numa época que não havia a pressa da comunicação instantânea, e embora você ficasse curiosa em receber logo uma resposta - ou conhecer pessoalmente o outro! - tudo era feito com mais calma, o que, por sua vez, tornava comum que visitas durassem semanas quando uma viagem realmente acontece.
 
É triste saber que não teremos mais livros como esse, pois a primeira autora, Mary Ann Shaffer, faleceu. Ela era idosa quando escreveu esse livro, e precisou da ajuda da sobrinha, Annie Barrows, para finaliza-lo.
 
Uma nota final: o livro não tem a receita da torta de casca de batata que eles faziam durante a guerra, mas há algumas receitas na internet, e eu pretendo testar alguma um dia!

30 de junho de 2012

As Esganadas

Editora Companhia das Letras - Capa Victor Burton & AngeloAllevato Bottino
Assim como em "O Xangô de Baker Street", o tema de "As Esganadas" de Jô  Soares são os assassinatos em série "de época", aqui, no Rio de Janeiro de 1938, época de Getúlio Vargas e o mundo pré II Guerra Mundial. E foi exatamente isso que eu gostei no livro: a ambientação da época, as citações sobre as ruas, corrida de carros, transmissões de rádio com propagandas de produtos que seriam inimagináveis hoje (ou não, eu sei).

A história inclui um ex-investigador português com características de Sherlock para ajudar o delegado brasileiro a descobrir quem está matando as gordinhas "esganadas", ou seja, sufocadas com comida. Além de dois personagens mais secundários mas igualmente cativantes, o auxiliar do delegado, um pouco medroso, mas com uma vida paralela bem peculiar e a jornalista - repórter de Assis Chateaubriand - corajosa e petulante.

O livro é puro entretenimento, para ler num sábado a tarde, e se divertir enquanto se descobre junto com os personagens quem é esse serial killer brasileiro que nunca existiu.

16 de janeiro de 2012

A letra escarlate


Editora Companhia das Letras - Capa: Raul Loureiro e Claudia Warrak
Este clássico da literatura norte-americana pode ser conhecido através dos 2 filmes baseados nele - sendo que o último, com a Demi Moore, é considerado ruim, principalmente a atuação da própria - mas a minha experiência com esse livro começou com a leitura e acabou hoje com a discussão no clube do livro. É incrivelmente enriquecedor ver a mesma história através de perspectivas de pessoas diferentes. Minha mente voltou cheia de várias ideias e comentários!

A narração sobre Hester Prynne, condenada a andar com a letra "A", de adúltera, costurada em escarlate no peito numa comunidade puritana do séc. XVIII nos Estados Unidos leva a discussões sobre culpa, pecado, moralidade, sociedade e o amor, além de relacionar com outros livros e filmes, como Crime e Castigo, O Crime do Padre Amaro e Dogville.

O livro é bem descritivo, tanto do ambiente como de personagens e circunstâncias, então ele vai devagar, com detalhes muito bem pensados e cheios de significado. (A introdução, em que Nathaniel Hawthorne fala sobre o serviço público em que trabalhava e como chegou até a história de Hester, eu considerei chatinha, embora possa dar uma melhor visão da sociedade da época).

Um dos personagens mais intrigantes é a Pérola (Pearl, mas aqui a tradução cabe) justamente a filha que Hester tem enquanto o seu marido está longe da cidade (provando o adultério) que é retratada como uma criança linda, inteligente e encantadora, vista como quase um ser élfico. E para explicar porque a criança foi batizada assim, há um dos trechos que eu mais gostei:

 "Sua Pérola - porque assim Hester chamou-a, não um nome expressivo de seu aspecto, que não tinha nada com o lustre calmo, branco, desapaixonado que seria indicado pela comparação. Mas ela nomeou a criança "Pérola" como sendo de grande preço - comprada com tudo o que ela tinha - o único tesouro de sua mãe!"

A Letra Escarlate é realmente um clássico, tanto por ser bem escrito como por retratar uma sociedade da época e fazer-nos pensar até sobre os dias de hoje (as relações entre o comportamento daquela pequena vila e o nosso mundo global). Além disso, é relativamente curto, cerca de 130 páginas e, além de edições em português, pode ser conseguido de graça em inglês no Kindle . Só vantagens para você que quiser ler. :)

6 de janeiro de 2012

Vanity Fair - Feira das Vaidades

Editora Randon
Eis que o meu ano começa com um calhamaço inglês do século XVII - 834 páginas (bem leves - e gratuitas! - no kindle) de um "romance de costumes", ou seja, uma descrição da sociedade da época. Sociedade aristocrática - a tal Feira das Vaidades do título, bem dito: nobres (príncipes, duques, marqueses...), burgueses ricos (embora alguns se tornem miseráveis), militares e colonizadores da Índia (na falta de palavra melhor).

William Makepeace Thackeray centrou a história em duas personagens femininas bem diferentes: Rebecca Spark e Amelia Sadley que saem da escola juntas, como amigas, mas em situação bem diferente: a primeira, Beckie, é orfã, sem riquezas, será governanta, mas é esperta e ambiciosa, a outra, Emmy, é a feminilidade vazia em pessoa, filha de burgueses, destinada a ser esposa frágil e inocente. Acompanhamos a história das duas, que se cruzam em vários momentos ao longo de 20 anos, e como cada uma enfrenta e lida com circustâncias bem diferentes.

Eu gostei muito de como o autor se intromete na narração como se fosse um observador presente, fazendo comentários ou descrições das pessoas, citando "amigos" e emitindo opiniões sobre condutas e personagens. É o momento de dar aquela risadinha, concordando ou não com ele, mas estando muito mais próximo de toda a história.

Também é interessante ver como a sociedade bem diferente se movimentava entre a Inglaterra e o Continente, indo para Bruxelas, Paris, Bolonha, durante e após toda a confusão com Napoleão. E como era natural misturar algumas palavras ou frases em francês na conversação, e às vezes até alemão, como a gente faz com o inglês hoje aqui no Brasil.

Eu, como uma apaixonada por Londres, também me deliciei com toda a cidade descrita ali - ruas e parques como Russell Square, Regent Park, Baker Street (antes de Sherlock!), Kensington Gardens, Hyde Park.

É um romance assim interessante pelo panorama histórico e social, e também pela história e pela forma que foi contado. Mas há de ter paciência, querido leitor, porque o autor realmente abusa das digressões para encher as mais de 800 páginas.


13 de novembro de 2011

Middlemarch - Um estudo da vida provinciana

Editora Record
Eu adoro histórias da Inglaterra no século XVIII e XIX - por essa afirmação, entenda-se Jane Austen e Charles Dickens. Quando eu vi esse livro para vender, Middlemarch, um tijolo de quase 900 páginas de George Eliot, contemporâneo a esses meus escritores favoritos, por uma verdadeira pechincha (12 reais), não resisti a levar para casa e esperar que um momento oportuno de leitura se apresentasse.

Aí eu descobri que George Eliot era um pseudônimo de Mary Ann Evans e aumentei ainda mais minhas expectativas - em ler um romance delicioso. No entanto, ao começar a ler, fiquei decepcionada - um pouco pelo estilo da autora e um pouco pela tradução (palavras rebuscadas e antiquadas, frases longas, muitas tramas paralelas em que os personagens eram apresentados com muitos detalhes). Foi muito difícil encarar as primeiras 150 páginas, então deixei o livro de lado e achei Guerra dos Tronos, e só depois de superar a minha dependência direta aos livros de George. R. R. Martín, consegui voltar para esse tijolinho (que provou porque custava tão barato ao ir descolando da lombada por pura manipulação de leitura).

Depois o enredo me ganhou, sendo o estudo realmente das relações humanas de uma pequena vila, as interações sociais entre os diferentes tipos, e mesmo os relacionamentos conjugais que se apresentaram. O olhar de George Eliot é realmente mordaz para nos levar a realidade de uma sociedade que não mudou tanto assim em sua essência nos últimos 200 anos. (Mas confesso que considerei exageradas as descrições do conhecimento médico da época e da situação política, contudo sempre há quem se interesse!)

Eu gostei particularmente de algumas passagens sobre o comportamento feminino e conjugal, que eu anotei para compartilhar com vocês.

"Deste modo, os primeiros meses de casamento são com frequência tempos de tumulto crítico - seja num lago raso ou em águas profundas - que depois se acomodam no regozijo da paz."

Dorothea, ou Dodo é uma jovem viúva sem filhos. Celia é sua irmã, casada com Sir James, mãe de um bebê novinho, Arthur. Os próximos trechos se referem a momentos entre Dorothea e Celia, depois da primeira passar uma temporada com a segunda, que está absolutamente encantada por seu filho. 
"Depois de três meses, Freshitt se tornara um pouco opressiva: não daria certo sentar-se por várias horas do dia, como um modelo de Santa Catarina, a olhar em êxtase para o bebê de Celia, e manter-se em presença deste portento com desinteresse persistente era uma atitude que não iriam tolerar numa irmã sem filhos. Dorothea bem que seria capaz de carregá-lo alegremente por até mais de um quilômetro, caso houvesse necessidade, e de amá-lo com mais ternura ainda, tendo em vista o esforço; mas para uma tia que não reconhece como Buda seu sobrinho infante, e nada tem a fazer por ele, a não ser admirá-lo, o comportamento de um bebê pode parecer monótono, e o interesse em observá-lo, esgotável."

"Agora, Dodo, dizia Celia, ouça o que diz o James, porque senão você cai numa enrascada. Sempre o fez, e sempre o fará, quando resolve agir como lhe agrada. Acho que agora é afinal uma benção que tenha o James para pensar por você. Ele deixa você ter os seus planos, somente lhe impede de enredar-se neles. E esta é a vantagem de ter um cunhado ao invés de um marido. Um marido não deixaria você ter os seus planos."

Engraçado, não? Imagine-se num mundo desses!

10 de julho de 2011

Roots: The Saga of an American Family

Editora Vanguard Press
Lembrei-me desse livro conversando com um amigo, que eu li emprestado há alguns anos, numa edição bem velhinha, em inglês mesmo. "Roots: The Saga of an American Family", traduzido aqui por "Negras Raízes: a saga de uma família americana", foi publicado na década de 70 nos Estados Unidos e foi seguido por uma adaptação para TV, de grande sucesso.

Alex Haley, o autor, começa a história com a família Kunta Kinte, um jovem na África que é capturado e vendido como escravo nos Estados Unidos no século XVIII. A narração continua acompanhando sua descendência na América "até os dias de hoje" com as mudanças na história - escravidão, guerra, liberdade, miséria, dreitos civis...

A história foca na tradição oral do povo africano, de contar para as crianças o que aconteceu com os pais, os avós, os bisavós, e repetir e repetir até que esteja registrado no cérebro e no coração, para que não se esqueçam... Nós que estamos tão acostumados com a riqueza da informação escrita - salve o google - esquecemos do poder das estórias para passar informação, de manter a tradição viva nas famílias. Acho que estas estórias aproximam gerações e conectam os membros da família de uma forma que vemos pouco hoje em dia. Não é muito impressionate descobrir como somos parte de uma perspectiva muito maior, uma história que começou centenas de anos atrás?

Outro fato do livro que me marcou foi a tradição de nomear a criança na tribo africana em questão. O pai escolhe o nome e, depois que a criança nasce, ele primeiro conta para ela, em seu ouvido, e depois anuncia para a tribo. A criança é digna de ser a primeira saber como ela será chamada... Muito bonito isso, não?

Para quem gosta de sagas, recomendo fortemente. Para estimular a descobrir sua própria saga também. Todo mundo tem uma.

4 de julho de 2011

Heart of Darkness & The Secret Sharer

Editora Signet Classics
Quando me apresentaram esse livro, o nome do autor, Joseph Conrad me pareceu familiar... Uma breve pesquisa me esclareceu: é dele também Lord Jim, um livro que sempre cruzou meu caminho, mas eu nunca li.

Joseph Conrad foi marinheiro, e nascido na Polônia viajou muito e aprendeu muitas línguas. Estima-se que o inglês foi seu sexto ou sétimo idioma e mesmo assim, foi com essa língua que ele escreveu suas obras e ganhou o prêmio Nobel.

A primeira história ao contrário do que o título dá a entender, The Secret Sharer  (algo como O compartilhador do segredo), já mostra o requinte de linguagem e descrição que Conrad pode atingir. O início é uma descrição do ambiente em que o navio do narrador está ancorado com muitas metáforas, como se fosse uma pintura mental, bem difícil de acompanhar. Dada sua vida náutica, a história tem vários termos referentes a essa cultura, e para quem não é familiar com ela, é mais complexo. Mas a história tem um forte cunho psicológico, trata-se do novo capitão de um navio, que ainda busca reforçar sua autoridade com a tripulação, encontrando um homem nadando nu no meio da noite, e ele o acolhe e o esconde em sua cabine mesmo quando descobre que ele fugiu de um navio onde estava preso por matar um companheiro de trabalho. Pela narrativa, às vezes há impressão de que o capitão está imaginando esse amigo (?), que só ele vê...

A segunda história, Heart of Darkness (Coração das trevas) é mais, como eu diria, popular. Ela inspirou o filme do Scorsese Apocalypse Now - e elas informações do próprio prefácio e pósfacio dessa edição - só realmente inspirou, já que o filme, que eu não assisti e não posso dizer, muita muitos dos detalhes da história (como o fato de essa se passar na África e o filme no Vietnã).

A narrativa é feita na perspectiva de um personagem, reunido a um grupo de homens sentados ao lado de um navio aguardando a noite passar, ouvindo um deles, Charles Marlow, contar sua incursão pela África. Ele foi contratado por uma empresa, para buscar Kurtz, um outro fucionário que traz muito marfim para os chefes através de um relacionamento muito forte com as tribos locais. (Este livro é terrivelmente dificil de resumir, então se você quiser saber a história toda, vá até a wikipedia ou outra fonte de sua preferência).

O que mais me impressionou foi como é gostoso de ler esse relato de Marlow, é extremamente musical, como se você o estivesse ouvindo falar, contar essa história na calada da noite. Por isso, eu recomendo mesmo você ler o original ao invés de ler um resumo. Além disso, há toda a discussão moral e psicológica do abuso e exploração da África pelos europeus no século XIX, que vale a pena ver - acostumados como estamos com a colonização brasileira, esquecemos como tudo pode ser bem mais terrível.

E interessante ver a anedota histórica - que pode ou não ser verdadeira. Contratado na Bélgica, antes de ser enviado para o continente africano, o médico da companhia o examina e mede seu crânio. Na conversa, Marlow descobre que praticamente todos enviados para lá enlouquecem, e muitos não conseguem voltar...

Embora eu tenha gostado muito, ressalto que não é uma leitura fácil, mas vale a pena. Eu gostaria de agradecer muito ao casal querido que me apresentou o desafio, ops, me emprestou a obra!

18 de junho de 2011

O Menino do Pijama Listrado

Editora Companhia das Letras

Atendendo a pedidos, vou falar sobre esse livro de John Boyne, que possui um dos títulos mais inusitados que eu já vi: "O menino do pijama listrado", principalmente quando você considera que o plano de fundo é a II Guerra.

Eu já li dezenas de livros sobre a II Guerra Mundial, sério. Eu já li romance, diários, de dentro do campo de concentração, da Alemanha, dos países vizinhos e por aí vai. O tema é impressionante e eu tenho certeza que a maioria das pessoas sente uma certa atração doentia por esse período de tanto terror - para entender melhor como tudo aconteceu, como foi possível homens se juntarem para acabar com outros homens (e tantos outros ficarem assistindo), os requintes de crueldade que não nos imaginamos capazes de fazer ou outra pessoa nesse mundo, mas que aconteceram mesmo e não só nas páginas de um livro ou nas telas de cinema.

Esse livro de John Boyne tem uma abordagem diferente porque parece um livro infantil - a história é contada do ponto de vista de Bruno, um garoto de Berlim que de repente muda-se com a família para um lugar diferente que ele chama de "Haja-Vista". Da janela do seu quarto, ele pode ver uma cerca, com pessoas vestidas com pijamas listrados...

Mas não podemos nos enganar, ainda estamos falando de nazismo. É um livro para adultos e daqueles que dão soco no estômago - por isso não é bom pegar quando estiver num momento sombrio da vida, para não deprimir mais. Para refletir e discutir o assunto, ele é um bom ponto de partida.

Tem coisas que a gente, como humanidade, nunca pode esquecer.

27 de maio de 2011

Robinson Crusoé

Editora Penguin

Ainda no clima das minhs férias, lembrei do livro Robinson Crusoé, que muita gente deve conhecer a história, sem nunca ter lido o original. Afinal, a história do século XVIII tem um tema simples - o náufrago numa ilha deserta, que é referenciado direta ou indiretamente até hoje, como no filme do Tom Hanks ou mesmo na série Lost.

Na história, Robinson Crusoé é o único sobrevivente de um naufrágio no Caribe (além de 3 animais) e chega numa ilha a princípio deserta, mas que depois descobre que é habitada por canibais. Um dos prisioneiros dos nativos consegue fugir da morte e encontra Robinson, que o chama de Sexa-feira, baseado num calendário que ele mantém desde que chegou na ilha.

É claro que no final ele é resgatado e volta para contar a história - é dito que Daniel Defoe se inspirou numa história real de um escocês que passou 4 anos numa ilha na costa chilena, e embora o cara tenha escrito seu relato, as histórias são bem diferentes, cmo por exemplo o Crusoé ficar por 20 anos na ilha.

Ao ler o original, você se depara também com várias reflexões espirituais do náufrago, que está ali com uma Bíblia (que eu sinceramente acho uma ótima escolha para uma ilha deserta - pelo tamanho e pelo conteúdo). Robinson Crusoé então se aproxima de Deus tanto pela leitura, como pela reflexão e seu contato solitário com a natureza.

É muito difícil de imaginar 20 anos de alguém num lugar isolado, e é claro que toda a conjuntura de 300 anos atrás é muito diferente da atual - a começar pelo politicamente correto, mas tenho certeza que qualquer um, em qualquer época, seria altamente modificado por um evento desse tipo. Um clássico que vale a pena ler pela literatura e pela curiosidade sociológica.

Para terminar, uma curiosidade para nós, brasileiros, é que o Robinson Crusoé morou no Brasil e era dono de uma plantação e estava no navio para buscar escravos na África.

15 de maio de 2011

Milionários Demais

Editora Companhia das Letras

Esse livro me apresentou um detetive na mesma linha de Sherlock Holmes e Hercule Poirot: Nero Wolfe. Assim como os dois, ele usa a capacidade dedutória e a lógica para desvendar os crimes e é um ser humano particular: excêntrico e esnobe - o que não evita que nós simpatizemos com ele.

A narrativa é do ponto de vista do seu auxiliar, Archie Goodwin, que o ajuda na parte prática, quando é preciso colher evidências ou intimidar suspeitos. A maneira em que é narrada também é peculiar porque é escrita com muitos detalhes, mas meio que sem muita emoção, o que dá um tom humorado ao livro. Esse não é o primeiro livro dos personagens (são mais de 30, num período de 25 anos), então ele não explica muito, a história vai acontecendo e eu fui deduzindo algumas coisas.  (E esse Archie é um pegador da época, tem seu charme para fazer sucesso com as mulheres).


Primeiro, que Nero Wolfe é muito gordo - Archie sempre o descrevia procurando uma cadeira adequada para sentar-se ao chegar em qualquer ambiente. E claro que em vários momentos podemos perceber que ele é um gourmet, e apreciador da culinária bem feita. Ele também é cultivador de orquídeas e, nessa história, ele sai de casa especialmente para participar de um concurso com um "inimigo" nessa área. (O meu amigo que me emprestou o livro disse que esse é um dos melhores justamente por isso - geralemente Nero não sai de casa para o mundo perigoso lá fora).

Outra dica do enredo é quando Archie diz que 2 dólares são suficientes para um bom almoço para duas pessoas - e aí eu percebi o quanto esse livro deve ser antigo, porque aposto que hoje em dia não se deve comer bem com esse valor nos Estados Unidos, onde se passa a trama (o detetive é de Nova Iorque).

Para quem gosta de história de detetive, recomendo mesmo, uma leitura fácil e divertida. (Mas deixo o registro aqui: Poirot ainda é o meu favorito!!!)

18 de abril de 2011

20000 leagues under the sea

Editora Geddes & Grosset

Depois de muito tempo sem ver a última página de um livro, hoje eu terminei Vinte mil léguas submarinas, da minha coleção de "Livros para Meninos", da qual eu também li "Sequestrado". E tanto esse como aquele são livros clássicos, antigos (séc. XIX) e difíceis de ler, seja pela linguagem seja pelo ritmo narrativo. Não sei se em francês Julio Verne é mais simples, mas numa busca rápida por capas de livros na internet, percebi que é muito mais fácil encontrar versões "condensadas" ou "adaptadas" em português do que o texto original.

Se você encarar o texto integral, vai se deparar com muitos detalhes científicos que explicam o funcionamento do submarino, navegação, a geografia submarina, a vida de diferentes espécieis embaixo da água e até um pouco de história. Se você quiser só ver a ação mesmo, a versão deve ser muito mais agradável. Ou mesmo um filme! Porque o livro é realmente cheio de aventura.

Um dos pontos interessantes é ver como a cultura mudou nesses 150 anos: existia muito mais formalidade e todo o conceito de "senhor" e "servo" era bem claro. O Prof. Aaronax, seu criado e um marinheiro são levados para dentro do submarino: o professor é honrado com cabine especial e conversas particulares, entre iguais, com o capitão do Nautilus, já o criado e o marinheiro dividem uma cabine, e embora sejam muito elogiados pelo professor, são claramente de uma classe inferior. O criado está disposto a morrer pelo professor, e este o chama de amigo, mas a situação social não muda... Agora fico imaginando: a sociedade realmente mudou, ou simplesmente somos mais politicamente corretos na superfície?

Outro ponto é a linguagem extremamente formal e polida, já que a história é narrada em 1a pessoa pelo professor, parece de uma afetação tamanha! Isso já é realmente diferente do que já estamos acostumados, com internet e twitter.

O livro é mesmo para garotos: não há nenhum - NENHUM - personagem feminino. Nada de romancezinhos, ou passagens fofas. E o trecho mais romântico do livro é esse:

"Assim os antigos, observando seus olhares suaves e expressivos, que não podem ser sobrepujados pelo olhar mais maravilhoso que uma mulher pode dar, os seus olhos claros voluptuosos, suas posições charmosas, e a poesia de seus trejeitos, os metamorfoseia, o macho em um tritão e a fêmea em uma sereia."

E ele está falando de uma foca. Pode?

Vale a nota: se você lembra do Nemo, do filme da Pixar, o capitão Nemo do livro é totalmente diferente no quesito doçura.

Por fim, eu sempre achei que as 20 mil léguas submarinas eram no sentido vertical: ou seja, eles iam até a profundidade de 20 mil léguas submarinas e encontravam vários bichos estranhos e tal. Mas não, caro leitor, admito a ignorância: essa distância (que no livro é especificado 1 légua como 4km, ou seja 80 mil km) é o que o submarino percorre durante a história nos 7 mares incluindo até o Polo Sul - a viagem ao centro da terra (outro livro!) é bem mais curta...

30 de novembro de 2010

Foi Apenas um Sonho

Continuando a série livros-de-filmes-que-eu-não-assisti e livros-alugados, aí está Foi apenas um sonho, do escritor americano Richard Yates.

Para começar, o livro é de 1961, e chama-se Revolutionary Road, algo como "Estrada Revolucionária", que é o endereço do casal da história. O livro chamava-se Rua da Revolução, até chegar o filme, e rebatizá-lo nessa nova edição com os fofíssimos Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

Posto esses detalhes técnicos, que nos fazem concluir que, embora envolva alguns arranhões, o cinema pode sim levar alguém a literatura, eu já digo que o livro é ótimo.

Um amigo disse que assistir o filme com a namorada é DR (discussão de relacionamento) na certa, mas o livro pode gerar debates sobre a cultura, a época (década de 50), e, claro, relacionamentos. Sinceramente, eu não sei o quanto o relacionamento de Frank e April refletem os relacionamentos atuais, acho que muito pouco, porque o fator principal ali é como eles encaram a realidade que vivem, os amigos, a sociedade, o trabalho, a carreira, e tudo isso mudou muito.

O papel da mulher mudou, são poucas as que ficam em casa, e muitas vezes isso se ficam não é por opção. A maioria das pessoas, principalmente os homens com nível superior (para não aumentar muito o universo da amostra e falar besteira), se importam com sua carreira, em atingir resultados melhores e salários maiores, "sucesso".

A situação no livro é totalmente diferente: Frank arraja um emprego para constar já que a mulher fica grávida no começo do casamento. Dez anos e dois filhos depois, ela propõe que eles mudem para a europa, onde ele lutara na guerra na década anterior, que ela trabalharia para sustentar a família e ele tenta "se encontrar".

Bom, esse é um resumo bem sem vergonha, porque realmente esse blog não é para resenhas profundas - mas a história é densa, e o retrato psicológico dos personagens é complexo.

Vale notar também que a prosa do autor é muito visual, descrevendo com detalhes as expressões, os trejeitos e o comportamento em geral dos personagens - é quase como se nós pudéssemos vê-los! (E para quem assistiu o filme, nem precisa desse exercício de imaginação, eu suponho, hahahahaha)