13 de novembro de 2011

Middlemarch - Um estudo da vida provinciana

Editora Record
Eu adoro histórias da Inglaterra no século XVIII e XIX - por essa afirmação, entenda-se Jane Austen e Charles Dickens. Quando eu vi esse livro para vender, Middlemarch, um tijolo de quase 900 páginas de George Eliot, contemporâneo a esses meus escritores favoritos, por uma verdadeira pechincha (12 reais), não resisti a levar para casa e esperar que um momento oportuno de leitura se apresentasse.

Aí eu descobri que George Eliot era um pseudônimo de Mary Ann Evans e aumentei ainda mais minhas expectativas - em ler um romance delicioso. No entanto, ao começar a ler, fiquei decepcionada - um pouco pelo estilo da autora e um pouco pela tradução (palavras rebuscadas e antiquadas, frases longas, muitas tramas paralelas em que os personagens eram apresentados com muitos detalhes). Foi muito difícil encarar as primeiras 150 páginas, então deixei o livro de lado e achei Guerra dos Tronos, e só depois de superar a minha dependência direta aos livros de George. R. R. Martín, consegui voltar para esse tijolinho (que provou porque custava tão barato ao ir descolando da lombada por pura manipulação de leitura).

Depois o enredo me ganhou, sendo o estudo realmente das relações humanas de uma pequena vila, as interações sociais entre os diferentes tipos, e mesmo os relacionamentos conjugais que se apresentaram. O olhar de George Eliot é realmente mordaz para nos levar a realidade de uma sociedade que não mudou tanto assim em sua essência nos últimos 200 anos. (Mas confesso que considerei exageradas as descrições do conhecimento médico da época e da situação política, contudo sempre há quem se interesse!)

Eu gostei particularmente de algumas passagens sobre o comportamento feminino e conjugal, que eu anotei para compartilhar com vocês.

"Deste modo, os primeiros meses de casamento são com frequência tempos de tumulto crítico - seja num lago raso ou em águas profundas - que depois se acomodam no regozijo da paz."

Dorothea, ou Dodo é uma jovem viúva sem filhos. Celia é sua irmã, casada com Sir James, mãe de um bebê novinho, Arthur. Os próximos trechos se referem a momentos entre Dorothea e Celia, depois da primeira passar uma temporada com a segunda, que está absolutamente encantada por seu filho. 
"Depois de três meses, Freshitt se tornara um pouco opressiva: não daria certo sentar-se por várias horas do dia, como um modelo de Santa Catarina, a olhar em êxtase para o bebê de Celia, e manter-se em presença deste portento com desinteresse persistente era uma atitude que não iriam tolerar numa irmã sem filhos. Dorothea bem que seria capaz de carregá-lo alegremente por até mais de um quilômetro, caso houvesse necessidade, e de amá-lo com mais ternura ainda, tendo em vista o esforço; mas para uma tia que não reconhece como Buda seu sobrinho infante, e nada tem a fazer por ele, a não ser admirá-lo, o comportamento de um bebê pode parecer monótono, e o interesse em observá-lo, esgotável."

"Agora, Dodo, dizia Celia, ouça o que diz o James, porque senão você cai numa enrascada. Sempre o fez, e sempre o fará, quando resolve agir como lhe agrada. Acho que agora é afinal uma benção que tenha o James para pensar por você. Ele deixa você ter os seus planos, somente lhe impede de enredar-se neles. E esta é a vantagem de ter um cunhado ao invés de um marido. Um marido não deixaria você ter os seus planos."

Engraçado, não? Imagine-se num mundo desses!

3 comentários:

  1. Olá, Taciana parabéns pela iniciativa em ler Eliot, isso é raro hoje. Parabéns pelo blog também, exalando criatividade! Penso persuadi-la a gostar da obra. Na realidade o rebuscamento não era uma opção da autora, era a naturalidade de sua escrita, e no caso da tradução, por momentos é evidente que escorrega aqui e ali, tanto na ortografia, com em pequenos erros sintáxicos. Ainda assim Eliot é notadamente uma autora cuja análise mordaz supera, em certo sentido, Austen e Dickens, e mesmo técnicas que notabilizaram-se no modernismo como o fluxo de consciência, que por exemplo aparece no Ulisses de James Joyce, já estão lá de forma brilhante. A obra condensa poucas personagens planas (destituídas de profundidade), a maioria é redonda, ou seja, não caracteriza-se por atitudes narradas em imagens superficiais antecipadas, tratam-se do ‘eu individual’ da personagem, que carregam densidade psicológica. Outra observação factível de análise é que Middlemarch não pretende ser um romance como os que nos deliciam em Jane Austen, a exemplo do mais belo, Orgulho e Preconceito, que é maravilhoso! Middlemarch é um estudo, inclusive de outra época, na qual a cultura tradicional inglesa estava visivelmente em metamorfose com a ascensão do capitalismo. Até as roupas haviam mudado, certos costumes, etc. Mais importante é destacar que as razões mudaram; Eliot não tinha o objetivo de construir um romance, mas um estudo em romance, portanto a história não precisa necessariamente ter um final feliz. Ela precisa representar a exatidão das volições humanas, as sórdidas razões de seu intimo, demonstrar que o perscruto da intimidade e revelador, é estupendo em trazer à luz a dimensão da hipocrisia que nos move. Talvez não fosse tão obvio com sua primeira leitura, e em comparação a Austen ela parece não muito agradável, admito, mas a mim é delicioso! Middlemarch é uma obra de realismo. ABRAÇO!

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  2. Andrewick, muito obrigada por compartilhar seu comentário aqui. É tão bom ter a visão de outra pessoa sobre a mesma obra, isso realmente é expandir nossa perspectiva, que é sempre saudável e enriquecedor.
    Middlemarch é inegavelmente bem construído, e não só essas duas citações que eu fiz aqui mostraram-me a perspicácia da autora em fazer observações da sociedade. Muito interessante mesmo.
    Obrigada novamente e um abraço!

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  3. olá, vc teria interesse em me vender o seu middlemarch-um estudo da vida provinciana?? estava pensando em lê-lo,mas ele está esgotado, é uma edição antiga.Se tiver interesse em vende-lo, meu e-mail tatianna.cavalcanti@bol.com.br

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