1 de maio de 2021

A Falência

 

Editora Companhia das Letras

Como é diferente um livro escrito por mulher!

Depois de ler várias obras de José de Alencar e Machado de Assis, é possível ter um retrato da sociedade urbana carioca do final do século XIX, mas aí vem Júlia Lopes de Almeida e descortina todo um panorama: a rotina da casa, os servos, a educação das crianças, o simples andar na rua de um bairro pobre. Um olhar para as personagens femininas menos idealista e mais humano.

A falência vai falar de Teodoro, o dono da empresa que vai falir, mas as mulheres brilham ao logo de toda trajetória: a esposa, a filha adolescente, as filhas pequenas, a babá / ama / serva, a sobrinha, as tias velhas solteironas, a serva das tias velhas.

Há também algumas situações e observações que resistem ao teste do tempo e fazem sentido até hoje, como essa frase que soou fundo para mim:

"A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção fantástica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorância de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela política amaldiçoada."

Até quando?

23 de abril de 2021

Queenie

 

Editora Orion Publishing

Na plataforma Goodreads, é dito que Queenie é uma encontro entre o Diário de Bridget Jones e Americanah, e esta pode ser uma boa dica do tom do livro, mas não dá para resumir nisso.

Queenie, nossa personagem principal na casa dos 20 anos, descobre que sofreu um aborto (apesar do DIU). O seu namorado está pedindo um tempo para pensar na vida - que inclui ela sair da casa em que eles moram juntos. Inicia-se uma crise de proporções épicas, e começam a sair todos os monstros da caixa - problemas no emprego, de identidade, relacionamentos com a família, com as amigas, com os homens - que poderia acontecer com qualquer mulher o mundo, mas, colocando a questão racial e todos os seus desdobramentos por cima, é de arregalar os olhos e sofrer junto.

É mais denso que a literatura chick lit normal - está mais na linha da Marian Keyes - mas é bom ter histórias assim que mostram o que as mulheres de diferentes tons tem de igual, e o que tem de diferente e o como a balança pesa para as mulheres negras, de qualquer condição social. 


9 de abril de 2021

The Vanishing Act of Esme Lennox

Eu sou fã de carteirinha da Maggie O'Farrell, então estou nessa jornada de ler todos os livros que ela escreveu e, entre eles, O ato de sumiço de Esme Lennox, que não tem disponível em português. O estilo da autora está lá, histórias começando em paralelo, que se cruzam e entre o passado e o presente a trama vai se desenrolando, segredos são revelados e você passa a entender mais os personagens. Há passagens chocantes (principalmente do ponto de vista psicológico), e uma visão interessante da psiquiatria no meio do século passado. Recomendo para quem gosta de tramas com boa densidade de personagens.

3 de abril de 2021

Neve

Eu comecei a ler "Neve" ano passado, tentei um pouco, parei. Comecei a ler de novo esse ano, e fui me forçando a ler durante mais de um mês. Realmente a leitura de Orhan Pamuk fluiu para mim. Eu entendo o peso desse livro, o retrato de época e de sociedade, a forma organizada e lapidada da escrita - que o levou ao prêmio Nobel (sendo que esse é considerado uma de suas principais obras), mas não me envolvi com os personagens ou mesmo com o narrador, que também é um personagem distante da trama principal. Talvez tenha sido o meu distanciamento da história turca e da sua cultura também, que só me causou estranhamento. Há uma parte de bom conteúdo humano, mas considerei complicado me familiarizar com eles para criar a tão necessária empatia. Assim, a leitura desse livro foi só um check na meta de ler os livros de autores laureados com o Nobel - e os meus próprios livros que eu já comprei e ainda não li.

31 de março de 2021

A noite da espera

 

Editora Companhia das Letras

Milton Hatoum é um grande autor brasileiro contemporâneo cujos livros fogem do eixo Rio-São Paulo e isso os torna tão interessantes. Em "A noite de Espera", acompanhamos alguns anos da vida de um adolescente - e então jovem universitário - em Brasília, na década de 60.

Temos ali a família que se rompe, com o pai querendo se afastar fisicamente da mãe que iniciou um novo relacionamento, as novas amizades e namoros, a cena cultural, o relacionamento com a política turbulenta e o movimento estudantil da época. É um retrato incrível, muito tangível, desse momento na vida de Martim.

Senti uma grande inquietação, um desconforto com esse jovem tão distante da mãe (que não consegue ir visita-lo) e do pai que transfere a raiva pelo fim do casamento para o filho. Ele é amparado por alguns amigos, surgem mentores, mas a quebra da estrutura familiar é uma dor real para ele.

Planejada como uma trilogia, o segundo volume da série "O Lugar mais sombrio" já foi lançado - Pontos de Fuga.



29 de março de 2021

Last Things

 

Editora Delta

O livro de Jenny Offill, Últimas Coisas, é mais uma história contada do ponto de vista de uma criança (que sempre é mais precoce e/ou observadora que as crianças "comuns"), num momento particular em que o casamento dos seus pais está passando por uma crise. 

A mãe é toda peculiar e é o foco dessa narrativa - seu jeito diferente de viver, suas crenças fora do comum (como o monstros marinhos desconhecidos), e como ela impacta sua filha. 

É interessante do ponto de vista psicológico, mas apesar do começo interessante, acabei por não simpatizar por ninguém ali, e o livro passou sem me prender.


27 de março de 2021

Os livros de Sayuri

 

Editora SM

Um livro sobre livros... não é uma deleite?

Lúcia Hiratsuka escreveu esse livro a partir da sua história familiar, de imigrantes japoneses morando no Brasil na época da II Guerra Mundial. Ela traz a visão de uma criança, que não entende bem a problemática política mas sofre seus efeitos.

Quando os japoneses são declarados inimigos, há uma proibição para que a escola comunitária funcione e os livros são banidos. Sayuri, que iria começar as aulas para aprender a ler, se vê desolada por perder essa oportunidade de finalmente entender os livros que tem na sua casa - daí o título Os Livros de Sayuri.

É interessante também ter um vislumbre dessa cultura e dessa época em que crianças ajudavam na roça, faziam o almoço, varriam a casa e também iam brincar lá fora, liam livros, sonhavam como crianças...

Por ser um livro infantil - com desenhos, letras grandes - também pode ser um ponto de partida para esses assuntos tão sensíveis - guerra, acesso a livros, trabalho familiar. Aqui, a Anna de 8 anos está lendo sozinha esse livro, e nós conversamos sobre ele.