17 de maio de 2026

Manual da Faxineira

 

Editora Companhia das Letras

Eu entendo que Lucia Berlin é uma grande escritora, e provavelmente a análise dos contos seja muito enriquecedora, mas como entretenimento, ler 500 páginas dos contos dela, realmente me cansou.

Tem bastante violência, alcoolismo, drogas, e cada conto deixa aquele desconforto de algo inacabado, ou um choque. Tem personagens que se repetem em diferentes contos, mas sem a preocupação de contar uma história linear ou, ao me ver, de manter uma coerência entre os contos. Alguns são mais interessantes do que outros, mas eu realmente cansei, e fui ficando cada vez mais distante.

Cada vez mais, eu estranho a sociedade dos Estados Unidos, principalmente como retratada aqui, sem conseguir me conectar emocionalmente - com a única exceção, da mulher que vai viver com sua irmã com câncer terminal - ainda tem o alcoolismo presente e uma desintegração de família que geralmente não vemos por aqui - mas pareceu bem mais humano e universal.

Talvez se esse livro fosse menor, eu teria curtido mais.


3 de maio de 2026

Orgulho e Preconceito

Editora Antofágica

Li de novo Orgulho e Preconceito, como se a TBR não existisse?

Sim.

Valeu a pena?

Sim.

Depois de assistir a série da BBC no Prime da Amazon, resolvi ir ao original da Jane Austen para saber o quanto do humor é da autora e quanto é da adaptação, assim, nos detalhes, e sim, senhoras e senhores, o livro tem muito de irônico e engraçado, e o que às vezes ficou estranho na adaptação, é muito bom no papel.

Que genialidade é esse texto!

Essa edição da Antofágica é repleta de ilustrações muito boas de Jess Vieira. Recomendo! (Li no biblion.)


 

1 de maio de 2026

Trilogia dos Gêmeos

 

Editora Dublinense

Ágota Kristof, húngara, escreveu livros geniais - uma afirmação nada ousada, depois de ler Trilogia dos Gêmeos.

O primeiro livro, O Grande Caderno, dá arrepios. Todo escrito em "nós" fala de guerra, família, identidade. Muito muito bom.

O segundo livro, A Prova, parece um balde de água fria - faz perder o rumo e está em outro lugar (e eu não achei tão bom quanto os outros dois, parece mais "comum" de certa forma, relativo aos outros dois.

O terceiro livro, aí sim, partimos numa viagem com a autora, Klaus Lucas, Claus, Lucas (um ANAGRAMA), uma loucura. Genial.

Recomendo de olhos fechados (mas é bom mantê-los abertos).


Estela a esta hora

 

Editora Todavia

Um título maravilhoso...

Uma capa incrível...

Ficou na minha lista de a ler por muito tempo... 

E aí quando eu finalmente leio (pelo biblion, salve!), simplesmente... me frustro.

Expectativa é a fonte da maioria das tristezas. 

Acho que eu ainda espero muito de médicos - mesmo os ficcionais - e ver alguém tão perdido e tão confuso é muito estranho - mas depois de ler A Pediatra, dá para saber que é possível chocar e trazer desconforto melhor que o proposto pela Natália Zuccala nesse livro. Não sei o que faltou, talvez uma maior conexão com essa personagem tão humana em suas imperfeições, mas o tanto que não é dito acabou fazendo falta.



27 de abril de 2026

Proust and the Squid

 

Editora Harper

Um colega de trabalho me indicou esse livro, sobre a história e a ciência do cérebro leitor (acredito que o título aqui no Brasil é esse mesmo, Cérebro Leitor, apesar do título em inglês ser um pouco mais literário Proust (o escritor) e o Polvo). 

Maryanne Wolf é uma neurocientista e nos apresenta informações históricas e neurológicas de como a humanidade desenvolveu a leitura e a escrita, e como isso acontece no cérebro de cada um de nós - já que não há uma parte do cérebro destinada a "ler", assim como há partes destinadas a controlar partes do corpo, ver, falar, etc. É algo incrível e muito interessante. Ela também fala de maneira muito sensível sobre a dislexia, e como não é "preguiça", mas uma configuração cerebral diferente que dificulta muito o processo de leitura, mas permite outras habilidades, como a criatividade em geral.

Uma das partes mais fofas é ela descrevendo crianças que participam dos estudos no centro de pesquisa que ela trabalha para exemplificar o que ela explica na teoria. É bonito de ver uma ciência que não é só teórica mas se desdobra em impacto real na vida de tanta gente.


26 de abril de 2026

Os Malaquias

Editora Companhia das Letras

Eu gostei muito do livro A Pediatra, e fiquei animada de ler Os Malaquias, da escritora Andréa Del Fuego também. Mas NÃO É A MESMA COISA. Livros completamente diferentes, com estilos diferentes. Denota o talento da escritora? (Ainda mais considerando que esse ganhou o Prêmio José Saramago) SIM. Mas é outra pegada.

Eu me senti um pouco perdida com tanto personagem, e cria-se uma angústia, uma falta de realização, e a linguagem - poética - dificulta um pouco também. É um bom livro e uma história com pitadas de realismo fantástico muito boa também, mas eu realmente esperava outra coisa.

(Em PS, na mesma semana, comecei a ler Ó, de Nuno Ramos, que também ganhou esse prêmio, um brasileiro que é mais artista visual do que escritor, e tive que desistir de ler, porque realmente achei chato, e a linguagem era bem poética também. Acho que existe algo comum aqui).

 

24 de abril de 2026

Meridiana

 

Editora Companhia das Letras

Eliana Alves Cruz escreve um livro sensível sobre uma família negra em ascensão para classe média, e tangencia TANTOS tópicos críticos da realidade contemporânea brasileira, que faz sentido o nome do livro ser Meridiana - o nome da filha caçula que é dado em referência às linhas imaginárias que repartem o mundo.

Não dá para ser brasileiro, ler esse livro, e não lembrar de conhecidos, amigos, notícias no jornal, e como fatos comuns (por exemplo, o plano Collor) impacta de maneiras diferentes brancos e negros. A autora expande mesmo isso: cada parte é um relato de um membro da família (pai, mãe, 3 filhos), e cada um deles tem percepções diferentes e muitas vezes não entendem as escolhas ou comportamentos uns dos outros, ou mesmo, supõem pensamentos e emoções que não são  verdadeiros - ou, pelo menos, não são a história toda.

Há em todos nós narradores não confiáveis, para usar um termo atual, e talvez muitos conflitos poderiam ser evitados se déssemos tempo para ouvir verdadeiramente o outro e, para mim, essa é a maior lição do livro.