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3 de janeiro de 2025

Enquanto houver limoeiros

 

Editora Verus

A canadense Zoulfa Katouh, filha de sírios, escreveu esse livro - uma mistura de romance Young Adult e relato de guerra - para falar sobre a Revolução Síria que estourou na década de 2010, e esteve nas notícias no final do ano passado.

Apesar de ser uma história ficcional, tanto a violência como o sofrimento da população são relatados de maneira bem gráfica, e foi bem difícil ler o livro todo.

É interessante ver um romance jovem em outra cultura, mas os personagens são simples e há partes da trama claramente forçadas. 

Assim, é difícil recomendar esse livro porque precisa ter estômago, mas a construção da história parece para adolescentes / jovens adultos. 




31 de maio de 2018

A Guerra não tem Rosto de Mulher

Editora Companhia das Letras - Capa Daniel Trench

Svetlana Aleksiévitch ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2015, e comentaram que sua escrita era documental, baseada em relatos de depoimentos relacionados a sobreviventes da II Guerra Mundial e Tchernobyl. Fiquei curiosa, é claro, e esse ano chegou a hora de me surpreender.

"A guerra não tem rosto de mulher" é incrível, supreendente, um lado da humanidade - um lado da guerra - que a gente não imagina, não consegueria imaginar se não fosse contado para a gente. Incrível que tem tantos filmes e livros sobre guerra, e como essa visão feminina não tenha aparecido antes. Sabemos da Joana D´Arc, claro, mas e todas as mulheres que resolveram pegar em armas? As espiãs? As com funções administrativas? As enfermeiras? As mulheres que lavavam roupas... existiam lavadeiras na guerra, e eu nunca tinha pensado nisso.

Esse livro reforça a minha ideia de que homens e mulheres são diferentes sim. Mesmo nas mesmas funções, no mesmo lugar, no mesmo evento - são diferentes. E isso não é ruim.

No livro, a autora tanto descreve o que ela ouviu das mulheres que entrevistou, assim como também a sua jornada de busca por depoimentos, e como foi filtrar / escolher o que entraria no livro e até com que ela queria falar, já que era muitas mulheres mesmo que a começaram a procurar quando descobriram o trabalho que ela estava fazendo.

Realmente, digna de ganhar um prêmio nobel e, seu livro, digno de ser lido por todo mundo que quer conhecer o que é humanidade.

25 de abril de 2018

March


Editora Harper Perennial

Mais um livro da lista de Pulitzers: March, de Geraldine Brooks. Confesso que fiquei desconfiada do livro assim que o comecei a ler: é a história do pai da família do livro Adoráveis Mulheres (Little Women), de sobrenome "March" (em português, "O Senhor March"). Quem já leu o clássico original, sabe que o pai está ali de relance, ele logo parte para a guerra, e não se vê muito mais dele. Então parece - e assim é - uma grande liberdade artística da autora essa recontagem da história. No final dessa edição, ela explica que usou de inspiração a vida do pai da autora do Little Women, Louisa May Alcott, já que claramente ela se inspirou na própria vida e de sua família para escrever seu livro.

Nessa narrativa, o pai está na Guerra da Secessão, como ministro / capelão de uma divisão do exército do Norte, mas por meio de flashbacks ele reconta toda sua vida, seu namoro, casamento, e seu envolvimento político com essa guerra antes mesmo de ela começar efetivamente. Uma personagem que parece completamente diferente é a mãe das quatro meninas, que é retratada de uma maneira mais sanguínea, enérgica e politicamente envolvida do que o clássico original parece sugerir (embora eu esteja escrevendo a partir das minhas lembranças do livro, não fatos fidedignos).

Assim como em "E o Vento Levou...", gostei de ler sobre esse episódio da história dos Estados Unidos por meio da literatura - me parece tão real embora seja ficcional - e alguns episódios levarei para sempre comigo.

3 de abril de 2018

The Sympathizer

Editora Grove Press - Capa Christopher Moisan

Esse livro entrou na minha lista de leituras porque é um ganhador do Pulitzer: O Simpatizante, Viet Thanh Nguyen - um americano. É daqueles livros TÃO diferentes da nossa realidade, que o assombro é impossível de evitar.

Nessa história, o narrador é um infiltrado comunista nas tropas "capitalistas" vietnamitas. Quandos os Estados Unidos perdem a guerra efetivamente, com o abandono de Saigon, ele é "evacuado" junto com o general para o qual ele serve para a Califórnia.

Ele não conta só da guerra e da sua vivência em solo norte-americano, mas também da sua infância, e suas convicções políticas e seus relacionamentos. É estranho, é chocante, e em determinado momento do livro, MUITO MUITO sofrido.

Para mim, foi particularmente interessante ler sobre a Guerra do Vietnã, já que não lembro de ter livros sobre ela, e é assim que eu mais gosto de aprender um pouco de história - através de obras ficcionais. Sei que não se trata de história com H maiúscula, mas a impressão do evento é bem mais marcante.

29 de julho de 2017

A febre do amanhecer

Editora Companhia das Letras - Capa Cláudia Espínola de Carvalho

Quão delicioso é ver uma história de amor verdadeira e emocionante?

Muito!

Eu adoro romances. Adoro. Por isso, assim que eu vi a sinopse desse livro, fiquei encantada, e coloquei na minha lista de desejos, que virou sonho realizado rapidinho.

O autor Péter Gárdos escreveu a história do namoro dos seus pais, húngaros judeus sobreviventes do Holocausto que foram se recuperar na Suécia. Miklos, 25 anos, está a beira da morte e está desenganado pelos médicos que lhe dão 6 meses de vida, mas pensa: eu não sobrevivi a guerra para morrer aqui, solteiro. Então, ele consegue uma lista das mulheres judias da sua região da Hungria que estão na Suécia, e manda uma carta para cada uma delas. Algumas escrevem de volta, ele filtra algumas respostas, e a troca de correspondência vai em frente com Lili, que só respondeu porque teve uma crise e foi internada, e queria uma distração no hospital.

Eu gosto desse amor deliberado - pessoas que decidem deixar-se envolver-se, rendem-se a um sentimento amoroso (amor, paixão), e firmam um compromisso. É a vitória humana sobre a tragédia da guerra, manter a capacidade de amar e a vontade de viver.

Tem gente que faz isso todos os dias, depois de uma tragédia... 

Eu achei muito interessante um detalhe da história - que mostra tanto a humanidade dos médicos suecos que receberam esses refugiados da guerra em missões humanitárias: quando Lili tem uma crise e precisa ser internada, o médico descobre quem são suas amigas, e as "interna" também, para que Lili não fique sozinha no hospital. Ela já tinha sofrido tanto na guerra, estava longe da sua família, e o médico teve esse cuidado de lhe dar companhia. 

Cuidar de uma pessoa é dar atenção aos detalhes também, de cuidar do corpo e da alma...

27 de junho de 2017

O caminho estreito para os confins do norte

Editora Globo - Capa Bloco Gráfico

Um dos meus melhores livros do ano: O Caminho Estreito para os Confins do Norte, Richard Flanagan. Ganhou o Man Booker Prize - e eu estou percebendo que esses prêmios funcionam como atestado de qualidade sim.

A história é sobre um prisioneiro de guerra australiano que é levado para trabalhar numa ferrovia impossível na Ásia (veja Burma Death Railway), após ser preso pelos japoneses durante a II Guerra Mundial. O livro vai e volta no tempo, mostrando Dorrigo Evans antes e depois da guerra (achei um pouco confuso no começo), e sua narrativa é muito fria e cruel, cheia de detalhes sobre o estado miserável dos prisioneiros - fome, doença, cansaço, agressões. É de embrulhar o estômago, é de chorar.

Eu já li muitos livros sobre a II Guerra na Europa, mas esse traz uma perspectiva totalmente nova - o que os japoneses estavam fazendo, como eles eram, e o envolvimento da Austrália nesse conflito. Além disso, dá para ter uma perspectiva do que é uma Guerra Mundial mesmo: Japoneses aprisionando australianos na Síria e levando-os para trabalhar no Sião. 

Como todo bom livro, ele também fala de amor - como é possível falar de humanidade sem falar de amor? E que dádiva é ver o amor sendo descrito de uma maneira completamente nova e que mesmo assim faz tanto sentido. 

"Tenho uma amiga em Fern Tree que ensina piano. Ela é muito musical. Já eu tenho dificuldade de reconhecer as notas. Mas um dia ela estava me dizendo que cada sala tem uma nota. Basta encontrá-la. Ela começou a modular a voz, mais grave e mais aguda. E, de repente, uma nota retornou a nós, simplesmente ricocheteou das paredes e se ergueu do chão e preencheu o lugar com seu zumbido perfeito. Um som maravilhoso. Como se arremessássemos uma ameixa e recebêssemos de volta um pomar. Foi inacreditável, sr. Evans. Duas coisas completamente diferentes, uma nota e uma sala, encontrando uma com a outra. Soava... correto. Estou sendo ridícula? Acha que é isso que queremos dizer com amor, Sr. Evans? A nota que retorna a nós? Que nos encontra mesmo quando não queremos ser encontrados? que um dia encontramos alguém, e tudo que a pessoa é volta para nós numa estranha maneira de zumbir? Que se encaixa? Que é maravilhosa. Não estou conseguindo me explicar muito bem, não é?, disse ela. Não sou muito boa com as palavras. Mas era assim conosco. Jack e eu. Não nos conhecíamos muito. Não tenho certeza se gostava de tudo nele. Imagino que algumas coisas em mim o tenham irritado. Mas eu era aquela sala, e ele era aquela nota, e agora ele se foi. E tudo está em silêncio."

Eu realmente recomendo ler esse livro, para aprender um pouco mais de história, e para aprender muito mais de humanidade (a qualidade de ser humano, não a qualidade de ser bonzinho).

29 de janeiro de 2017

Estação das Chuvas

Editora Língua Geral Livros  - Capa Rico Lins
José Eduardo Agualusa é um autor angolano de renome internacional - um dos seus livros traduzidos foi indicado ao Man Booker Prize International ano passado. Eu já tinha ouvido falar sobre ele antes, e por isso comprei "Estação das Chuvas" num sebo ano passado, sem nem ver sinopse nem nada. O livro é sobre uma escritora angolana, Lídia do Carmo Ferreira - sua história e suas opiniões, dadas em entrevista ao narrador. Mas mais do que isso é um panorama da história da Angola no século XX, principalmente os movimentos políticos de independência e lutas pelo poder.

No entanto, a história é não linear, e são capítulos curtos que vão trazendo um episódio ou outro da Lídia, além de fatos e pessoas da história do país, fazendo uma colcha de retalhos. Para mim, que não tenho noção nenhuma da história angolana, não tenho as referências das pessoas de lá, realmente me perdi no livro. 

Achei tão diferente de Meio Sol Amarelo que através dos personagens ficcionais nos aproxima do conflito - aqui, há tantas siglas e lutas e mudanças de lado, que foi depois de procurar informações sobre o livro que eu descobri que ele é sobre a escritora - que realmente existiu - e não sobre os conflitos do país.

Outro agravante é a quantidade imensa de palavras locais, algumas notas - outras não, e mesmo quando "traduzidas", a falta de contexto prejudica o entendimento. Talvez uma edição com mais notas e comentários seja mais fácil de ler e compreender do que essa, que dificultou até apreciar o autor.

23 de dezembro de 2016

Meio Sol Amarelo

Editora Companha das Letras - Capa Mayurni Okuyama

"Meio Sol Amarelo" é uma história de guerra, guerra feia, mas focada nos personagens humanos, tão humanos.

No Brasil, não estudamos direito a história da África, não conhecemos suas particularidades, e, arrisco eu, mesmo com toda nossa história que nos une a eles, sabemos pouco de sua cultura. Então esse livro é uma ótima janela para um povo, os Ibos, e o que foi a revolução de Biafra contra a Nigéria na década de 60.

A autora Chimamanda Ngozi Adichie deixa claro que há só inspiração, não fatos reais, mas é impossível não entender que relatos jornalísticos podem não ser tão fidedignos assim, e suspeitar do que sabemos sobre conflitos atuais.

Aliás, mesmo dentro do conflito - como acontece nessa história - é possível observar com clareza como o controle das informações para criar o medo pode ser uma ferramenta potente em uma guerra, ao fragilizar tanto as pessoas, mesmo se as pessoas acreditam piamente na vitória.

É uma história tremendamente triste. E bonita. E incrível.

O Rouxinol

Editora Arqueiro

Logo no começo, o livro O Rouxinol apresenta uma senhorinha e passa para o flash back da vida de duas irmãs francesas na II Guerra Mundial. Então é claro, e não spoiler, que uma delas está viva ainda - apesar de todos os perigos e percalços que elas passaram - mas a dúvida é: quem? E mais do que isso - porque você sempre pode chutar ou pescar evidências - como?

Eu gostei muito de ler um livro na perspectiva da França Ocupada - eu sei que Toda Luz que não podemos ver também era sobre isso, mas aqui falamos da linha de frente da Resistência. De pessoas tendo que ter alemães morando em suas casas. Do dilema diário de resistir, enfrentar, aceitar, fugir. 

Há o lado da vítima, que é perseguida, que é atacada, que é aprisionada e que é morta.

Há o lado do algoz, convicto, consciencioso.

E agora eu posso imaginar quão difícil é ser esse terceiro lado, que é impossível ser imparcial, que ser omisso já é uma decisão para um dos lados, que por vezes demonstra muito mais coragem do que aquele que ataca.

Eu admiro todos aqueles que, um dia, se meteram numa briga para defender o lado mais fraco, para protegerem alguém, para fazerem o que é certo. Ainda há pessoas assim, heróis discretos, valentes, diários. Que Deus possa proteger e ajudar vocês.



11 de dezembro de 2016

Meio Sol Amarelo

Editora Companhia das Letras - Capa Mayurni Okuyama

"Meio Sol Amarelo" é uma história de guerra, guerra feia, mas focada nos personagens humanos, tão humanos.

No Brasil, não estudamos direito a história da África, não conhecemos suas particularidades, e, arrisco eu, mesmo com toda nossa história que nos une a eles, sabemos pouco de sua cultura. Então esse livro é uma ótima janela para um povo, os Ibos, e o que foi a revolução de Biafra contra a Nigéria na década de 60.

A autora Chimamanda Ngozi Adichie deixa claro que há só inspiração, não fatos reais, mas é impossível não entender que relatos jornalísticos podem não ser tão fidedignos assim, e suspeitar do que sabemos sobre conflitos atuais.

Aliás, mesmo dentro do conflito - como acontece nessa história - é possível observar com clareza como o controle das informações para criar o medo pode ser uma ferramenta potente em uma guerra, ao fragilizar tanto as pessoas, mesmo se as pessoas acreditam piamente na vitória.

É uma história tremendamente triste. E bonita. E incrível.

13 de abril de 2016

Toda luz que não podemos ver

Editora Intrínseca
É fácil criar expectativas a partir de um título tão poético: "Toda luz que não podemos ver". Melhor ainda é descobrir lá pelo meio do livro que é uma alusão ao espectro não visível da luz - física pura. Anthony Doerr faz um livro assim: poético com um toque de tecnologia - no caso, o rádio.

A maior parte da história se passa durante a segunda guerra mundial, e embora eu concorde que esse tema já tenha sido bem explorado, eu gostei da abordagem do autor: tem um pouco de Alemanha, um pouquinho da fuga de Paris frente a Ocupação, e a convivência forçada com o Eixo numa cidadezinha litorânea, Saint Malo.

Além disso, temos duas personagens muito carismáticas - Werner Pfennig, um garoto pobre alemão que se mostra um técnico de rádios incrível e por isso tem as portas abertas para uma carreira promissora - no caso, no exército alemão, e Marie-Laure LeBlanc, uma garota cega que é filha do chaveiro do museu do Louvre, e que foge com o pai para Saint-Malo. É claro que as histórias estão entrelaçadas, mas o como eu vou deixar você descobrir. 

É um livro mais leve do que se pode esperar (considerando que estamos falando da Europa em guerra), e ficção descarada (até com um elemento fantástico), mas com uma visão diferente do evento histórico de quem está acostumando a ler sobre os judeus, os campos de concentração e o front de batalha. Daria um belo filme!

14 de maio de 2015

O adversário secreto

Editora Globo - Capa Rafael Nobre / Babilônia Cultura Editorial

Adversário Secreto é o primeiro livro da Agatha Christie com o casal de detetives Tommy e Tuppence. Nessa edição da Editora Globo (eu li digital), tem uma introdução muito interessante, que explica que os 5 livros em que eles figuram abrangem praticamente toda sua vida - da solteirice até a aposentadoria com netos (escritos também num grande período de tempo, entre 1922 e 1973, 51 anos).

Nesse livro, Tommy e Tuppence são pessoas comuns, sem emprego no pós guerra, que decidem trabalhar com "aventuras", e uma rapidamente se apresenta - é uma trama de espionagem internacional, com identidades secretas e tudo o mais. É uma aventura bonitinha, por assim dizer, perfeita para iniciar o romance desses dois. Legal também ler um livro da Agatha Christie que o foco não é um assassinato (ou vários), e sim um outro tipo de suspense. 

21 de dezembro de 2012

Maus

Editora Companhia das Letras - Capa: Art Spiegelman e Louise Fili

A história de um judeu na II Guerra Mundial, em quadrinhos, onde judeus são ratos e alemães são gatos. Inusitado, não? Art Spiegelman realmente encarou um desafio e tanto ao escrever a história do seu pai nesse formato diferente. Em uma parte de "Maus", em que ele se permite a metalinguagem, Spiegelman reconhece que não é fácil transpor todo um relato de guerra e dor para o formato de quadrinhos - que pode aparentar ser tão superficial e leve. 

No entanto, Art Spiegelman conseguiu a proeza de fazer um livro lindo, emocionante, tão real - que você não vê desenhos de ratos (mesmo que muito bem feitos), mas sim um panorama da crueldade da II Guerra Mundial de causar arrepios. Com quase 300 páginas, o livro flui e marca o nosso coração, até pelos toques de humor ao mostrar como o autor lida com seu pai, muito velho e muquirana, morando nos Estados Unidos. 

Esse livro só caiu nas minhas mãos agora, mas ele não é recente: a sua primeira parte foi publicada no início da década de 70. Se você ainda não leu, eu recomendo, recomendo, recomendo. 

15 de agosto de 2012

A Cruz de Hitler

Editora Vida - Capa Marcelo Moscheta
Talvez você, como eu, já tenha lido mais sobre a II Guerra Mundial do que razoável, pois esse é um tema que realmente permeia muito da literatura ocidental recente - seja do ponto de vista dos alemães, dos judeus nos campos de concentração, dos sobreviventes, dos filhos dos sobreviventes. Talvez você, como eu, fuja um pouco desse assunto, porque é a quantidade de sofrimento gerada por ideologias racionalmente, humanamente, inexplicáveis é tão grande que pode fazer você perder a fome, o sono, ou a fé na humanidade.

No entanto, esse livro me foi recomendado e eu fiquei interessada, como cristã, pela abordagem desse pastor, Erwin Lutzer, em - tentar - explicar o papel da igreja cristã na Alemanha que se formava nazista. "A Cruz de Hitler" é a própria suástica, que, antes mesmo de começar a guerra, já era substituída - voluntariamente ou não - nas igrejas católicas e protestantes do país, segundo os registros históricos citados (e eles são vários).

Em resumo, a igreja foi "levada" a apoiar Hitler ou a se omitir frente às atrocidades cometidas, pelo mesmo motivo que influenciou todo o povo alemão (com honrosas exceções, tanto cristãs como não): as dificuldades econômicas e um discurso de valorização nacionalista toca fundo no coração das pessoas quando a realidade é de escassez e repressão. O que é óbvio, já que a igreja é formada por homens e mulheres, que podem se enganar, errar, pecar. Naquele momento, ela estava errada e ponto, principalmente porque seu comportamento não condizia com o que Deus da Bíblia esperava dos seus seguidores.

O autor também explica porque Deus permitiu que isso acontecesse com o seu povo (os judeus), ou porque, mas amplamente, Hitler existiu e agiu daquela forma, teologicamente falando, numa perspectiva do Deus que é amor. Para esse assunto, e uma explanação mais completa do que eu pincelei aqui, recomendo o livro original, claro (que pode ser controverso em algumas partes - adianto, para explicar que não concordo nem discordo de algumas posições do autor).

15 de maio de 2012

A Feast for Crows e A Dance with Dragons

Editora HarperCollins Publishers
Os últimos dois livros lançados da série de Guerra dos Tronos, juntos, tem mais de duas mil páginas e dezenas de personages principais (aqueles que são nomes de capítulos). "Um Banquete para os Corvos" e "Uma dança com dragões" são respectivamente o quarto e o quinto livro da série de George R. R. Martín, a quem incluímos nas nossas orações para que não morra antes de escrever os dois livros que faltam.

É difícil comentar algo da história sem fazer spoilers, mas esse é a minha proposta aqui - continuamos torcendo para alguns personagens, mas o autor continua sem dó para ceifar cabeças e nos surpreender com uma reviravolta que é de tirar o chão, isso principalmente mais para o final do 5o livro, quando a trama acelera.

Pois o que é admirável nessa obra - a forma como G. R. R. Martín descreve todos os jogadores desse jogo de poder, sejam eles grandes ou pequenos - também é o que a deixa inconstante: afinal gostamos mais de alguns personagens, que são mais interessantes ou simpáticos, mas para dar conta de andar com todas as tramas paralelamente, os "preferidos" demoram para aparecer - talvez até deliberadamente para aguçar ainda mais nossa curiosidade.

A trama é realmente complexa e muito bem construída: além de estar contando sobre a vida de centenas de pessoas, nesses livros há mais revelações sobre a história de Westeros e do resto desse mundo que não sei como cabe na mente de um homem só. De ficar boquiaberta, e torcer para o próximo livro ser lançado logo. Corra, Martín, corra!

2 de março de 2012

Hunger Games - Jogos Vorazes

Editora Scholastic Press
Senhoras e senhores, apresento a vocês a série blockbuster da temporada - Jogos Vorazes, de Suzanne Collins. Se não for isso, é quase, porque o ponto inicial pode assustar um pouco as pessoas, mas quem sabe com o filme do primeiro livro chegando aos cinemas (daqui a 3 semanas e esse post é para encorajá-lo fortemente a lê-lo antes disso), acredito que o sucesso (que está viral por enquanto) só tende a aumentar.

Embora tenha ouvido de vários amigos que se tratavam realmente de livros ótimos, a minha primeira vontade era fugir. Para entender melhor: num futuro distante, aqui mesmo na Terra, tudo começa com os tais jogos da fome, em que 24 adolescentes (12 a 18 anos, isso aí), são selecionados para participar de um programa televisivo que é uma mistura de BBB e UFC fatal - jogados numa arena, o último a sair vivo, ganha. Sim, vivo. Sim, tem que matar os outros. E eu lá quero ver um livro que garante a descrição de 23 pessoas morrendo? Aí vai um spoiler que vale a pena (ou pule para o próximo parágrafo, se conseguir): minha amiga me garantiu que ninguém a quem você se apega morre, então não fica tão sofrível. Ok, com essa relativização (ou premissa), que ne permitiu achar coragem, continuemos.

No entanto, tem todo um aspecto político por trás - no futuro, esses jogos vorazes acontecem para que os 12 distritos de um "reino", Panem, lembrem-se continuamente de que não deveriam ter se rebelado contra o governo central, o Capitol, ao enviar 2 de seus adolescentes, escolhidos por sorteio ou voluntários, para se matarem num grande show de entretenimento - cujo  prêmio é  basicamente dinheiro e comida, algo bem restrito para eles nessa época (é já é a 74a edição). Daí vem a parte que realmente me interessa: uma observação das relações de poder e comportamentos humanos, bondade e maldade, que embora o contexto seja totalmente fictício - gente é gente em qualquer lugar.

Eu li os 3 livros em uma semana - no Carnaval - porque são do tipo que não dá para parar de ler. Escritos para nos prender mesmo, podem dar filmes ótimos - não vou perder o primeiro, meu preferido, de jeito nenhum. Bom, não consigo comentar mais nada - inclusive se sou team P. ou team G. - para não estragar a leitura de vocês. Mas corre para ler. Vale a pena.

18 de setembro de 2011

O Tambor

Editora Nova Fronteira
Em 1999, Gunter Grass ganhou o prêmio Nobel de Literatura e a sua principal obra de referência era "O Tambor". Curiosa a respeito do mais novo laureado, alemão, peguei esse livro na Biblioteca Municipal de Valinhos. Na hora de passar pelo balcão, a senhora comenta: "Que engraçado, ninguém pegava esse livro há 10 anos e você é a terceira nesse mês." E eu: "É que o autor acabou de ganhar o prêmio Nobel". E ela: "Ah...".

Essa pequena anedota diz duas coisas:

1) Pessoas que trabalham em biblioteca não necessariamente gostam de livros e todo o seu mundo.

2) Livros de Nobel são assim: passam anos ignorados pela população em geral, até serem popularizados por algum instante. (Se alguém conhece a biblioteca de Valinhos, vai lá ver para mim desde quando ninguém lê esse livro, por favor).


Eu não  me lembrava com detalhes da história, mas a wikipedia me ajudou. O livro são as memórias de um anão, que está num asilo na década de 50, desde o seu nascimento na Polônia. É ele que toca o tambor, inclusive para entreter as tropas nazistas numa "trupe de anões". O livro foi escrito bem naquela época, então é um retrato da sociedade alemã contemporânea - e o que os entendidos gostam de chamar de "crítica social".

Eu não gostei tanto assim para me empolgar de ler outros, mas foi interessante conhecer um Nobel - e a literatura alemã que nem é tão conhecida por aqui.

18 de junho de 2011

O Menino do Pijama Listrado

Editora Companhia das Letras

Atendendo a pedidos, vou falar sobre esse livro de John Boyne, que possui um dos títulos mais inusitados que eu já vi: "O menino do pijama listrado", principalmente quando você considera que o plano de fundo é a II Guerra.

Eu já li dezenas de livros sobre a II Guerra Mundial, sério. Eu já li romance, diários, de dentro do campo de concentração, da Alemanha, dos países vizinhos e por aí vai. O tema é impressionante e eu tenho certeza que a maioria das pessoas sente uma certa atração doentia por esse período de tanto terror - para entender melhor como tudo aconteceu, como foi possível homens se juntarem para acabar com outros homens (e tantos outros ficarem assistindo), os requintes de crueldade que não nos imaginamos capazes de fazer ou outra pessoa nesse mundo, mas que aconteceram mesmo e não só nas páginas de um livro ou nas telas de cinema.

Esse livro de John Boyne tem uma abordagem diferente porque parece um livro infantil - a história é contada do ponto de vista de Bruno, um garoto de Berlim que de repente muda-se com a família para um lugar diferente que ele chama de "Haja-Vista". Da janela do seu quarto, ele pode ver uma cerca, com pessoas vestidas com pijamas listrados...

Mas não podemos nos enganar, ainda estamos falando de nazismo. É um livro para adultos e daqueles que dão soco no estômago - por isso não é bom pegar quando estiver num momento sombrio da vida, para não deprimir mais. Para refletir e discutir o assunto, ele é um bom ponto de partida.

Tem coisas que a gente, como humanidade, nunca pode esquecer.

30 de maio de 2011

The Apostle


Editora Pocket Books
 Esse é um livro de garotos, ou seja, parece um filme de ação com muitas armas, brigas e conspirações - "a thriller". Pela capa, você pode imaginar que é um daqueles filmes americanos, que o mocinho dos states salva o mundo no final e é quase isso. E embora isso tudo possa depor contra o livro, ele é incrivelmente bom.

A história é ao redor de uma médica americana que é sequestrada no Afeganistão e o resgate pedido é um líder do talibã que acaba de ser preso pelos afegães. O detalhe é que a mãe dela é uma super poderosa da mídia que acabou de eleger o presidente americano e o chantageia para se envolver no resgate - já que o povo lá não que o dinheiro que ela ofereceu. Para o negócio não virar público e político, Mr. President contacta um ex-agente SEAL (sim, esses que mataram o Bin Laden), para que ele faça o trabalhinho de maneira secreta. A partir daí, a história se separa em duas - no Afeganistão, em que "O Apóstolo" do título (ou "embaixador" ou "mensageiro", na tradução que melhor lhe apetecer) relaciona-se com americanos, canadenses e afegães para pegar o líder talibã e trocar pela médica sem envolver o nome do governo americano nisso - e a outra parte da história, em que uma agente secreta, que ouviu a super poderosa chantagear o presidente, tenta descobrir o que ele está tentando esconder.

Os personagens e as tramas são muito bem construídos, sem forçar a barra só para a ação acontecer, o que realmente me impressionou. Quando você vê um filme assim, acha que tudo é pretexto para as lutinhas, o que tornaria a leitura um ato de martírio. Mas esse livro de Brad Thor pode virar um filme sim e não seria o dos mais bobos - sem, é claro, esquecer o patriotismo americano e tal - se você não suporta isso, fique longe. (Ah, e realmente ajuda se você é um garoto com interesse em armas, eles citam vários equipamentos por siglas que eu não fazia a mínima ideia do que se tratava).

No entanto, outro ponto surpreendente é a maneira em que o Afeganistão é retratado: como uma cultura diferente, e num pontos difíceis de compreender para os olhos ocidentais (eles tem até o bordão "TIA", ou "This is Afghanistan", "esse é o afeganistão", não questione), mas até com certo respeito. Diferente de livros como O Caçador de Pipas e Cidade do Sol, ele foca mais nesse sub mundo de terrorismo, segurança, e o contato do talibã e do Afeganistão em geral com os ocidentais que já se encontram ali, então você vê o que é um mundo globalizado mesmo. Não é possível dizer se tudo que está descrito no livro é real, mas parece bem convincente.

Esse livro eu ganhei de aniversário de um casal muito querido, o que não o salvou de tomar um caldo nas férias, ao qual ele sobreviveu! Já está disponível para empréstimo.

4 de março de 2011

O retorno

A minutos de sair para o feriadão, deixo aqui uma recomendação de livro para vocês, que a minha mãe comprou e deixou eu ler primeiro, ainda com cheirinho de livro novo, que gostoso... Obrigada, mamy!

"O retorno", da autora inglesa Victoria Hislop, é um romance com direito a saga familiar num cenário pitoresco e turbulento de política e guerra. Ele começa com Sonia Cameron, uma inglesa que gosta de dançar salsa - pois é - indo com uma amiga que também dança passar uns dias em Granada, no interior da Espanha, para fazer um curso de, claro, salsa. (Essa parte realmente me surpreendeu, ingleses dançando salsa?)

Lá, ela conhece o dono de um dos cafés do centro da cidade, Miguel, que acaba por lhe contar toda a história de uma família, os Ramirez: os pais Pablo e Concha, os filhos Antônio, Ignácio, Emilio e Mercedes. Cada um dos filhos é bem diferente do outro, um é professor, outro é toureiro, um gosto de música, e a garota gosta de flamenco. Eu sou apaixonada por flamenco, então todas as descrições de dança, roupa, música, me deixaram boquiaberta. (Particularmente, com muita vontade de ir para a Espanha também).

Logo rompe a Guerra Civil Espanhola, e embora seja uma obra de ficção, eu sempre gosta de acreditar que o autor tenha feito uma boa pesquisa histórica e todos os relatos me impressionaram demais. Nós não aprendemos muito a história espanhola, e essa disputa política que dizimou o país, prendeu muitas pessoas e tornou milhares refugiados me parece muito o noticiário que ouvimos a respeito da Líbia atualmente. Particularmente, há muita descrição dos embates aéreos em que se jogavam bombas em cima de cidades e seus civis, ou metralhava-se pessoas fugindo na estrada. Guernica, tem completamente outro significado para mim agora.

  
O enredo do livro é interessante, mas o ponto principal do livro é o relato sofrido da guerra, toda a história política. (E o flamenco, vai. É lindo demais!)