29 de março de 2026

Uma delicada coleção de ausências

 

Editora Companhia das Letras

Eu queria muito gostar desse livro: o título é pura poesia, a capa singela, a história sobre uma neta, uma avó, uma bisavó e uma mãe ausente... Mas o clímax do livro não é nada delicado, nem ausente, algo trágico e sofrido, que, assim como aconteceu em "Pequena Coreografia do Adeus", uma tristeza pungente sem fim.

Então eu vim pela história de maternidade - um interesse em mulheres que fogem com o circo, mulheres que abandonam os filhos - e realmente não é sobre isso, e o fato da reviravolta me tirar o chão, não atendeu às minhas expectativas.

A prosa poética continua bonita, e imagino que há fãs da forma (mais do que da história), mas, para ler obras da Alice Bei, é preciso ter estômago para lidar com as rudezas da vida.

Agradeço a Companhia das Letras pela cópia fornecida via NetGalley.

28 de março de 2026

Demon Copperhead

 

Editora Faber & Faber

O livro "Demon Copperhead" ganhou 2 prêmios que eu acompanho: Pulitzer de Ficção e Women's Prize for Fiction. Além disso, é uma releitura de David Copperfield, atualizado para o interior dos Estados Unidos, livro de um autor que eu amo, Charles Dickens. Assim, não foi difícil entrar para a minha lista de leitura (bastou uma promoção na Amazon).

Barbara Kingsolver escreve muito bem, e fez um retrato incrível de uma cidadezinha perdida da Virginia - que a gente torce muito para não ser verdadeira, mas provavelmente é. A descrição desse garoto passando fome me fez doer o estômago. Eu me senti numa montanha russa: muita tristeza, esperança, muita tristeza, alegria, tristeza, e, até o final, fui ali com o coração na mão, acompanhando esse garoto, torcendo por ele, como se real fosse.

Recomendo para quem quer sofrer, mas quer sentir um quentinho no coração também.

22 de março de 2026

Os Nomes

 

Editora Tag

Esse livro da Florence Knapp entrou na minha lista de desejados assim que eu vi a sinopse: histórias paralelas de como a vida das pessoas foram afetadas por diferentes escolhas do nome do bebê.

Eu sou obcecada por nomes próprios: tenho dicas de sites, contas de instagram e ainda lembro de histórias de nomes de pessoas - quem puder, veja a peça ou o filme "O nome do bebê", é ótimo!, e tenho minha própria jornada de escolha de nomes próprios para as minhas filhas. Acho sim que o nome tem um peso na vida da pessoa (olha o meu nome!), mas foi interessantíssimo ver isso levado ao extremo na literatura.

Eu gostei da estrutura do livro e como há uma complexidade nos personagens, e nas escolhas sutis das balizas das vidas das pessoas - o que é afetado pela escolha do nome e o que não é nas personalidades. 

É um livro com vários momentos difíceis - alguns gatilhos, como dizem atualmente - mas não é tão sofrido - só o tanto que você envolve na vida deles. Muito bom mesmo.


12 de março de 2026

A Herança da Mãe

 

Editora Carambaia

Eu simplesmente adorei o livro "A Herança da mãe" da Minae Mizumura. Com maestria, ela traça um panorama cultural das mulheres japonesas, através da vida das irmãs Mitsuki e Natsuki, sua mãe e sua avó.

A história vai indo leve - ela foi publicada em capítulos, semanalmente no Japão - mas é um descortinar de mundos cobertos, diferentes da nossa realidade brasileira, mas também com sentimentos e vivências muito parecidas.

Particularmente, ressoa bastante com as pessoas que estão na fase de passar a cuidar dos seus pais ou já cuidaram, porque é muito dessa dinâmica que é tratada nessa história e não há como isso não ser universal.

É um ótimo livro, um privilégio estar publicado aqui no Brasil, e está disponível no biblion.

17 de fevereiro de 2026

The Camomile

 

Editora British Library Women Writers

Catherine Carswell publicou "A Camomila" em 1922, a história da jovem Ellen que mora em Glascow, após ter feito curso de piano em Frankfurt. Ela quer ser escritora, tem amigas, um irmão que quer se mudar para os Estados Unidos, e depois de uma viagem de férias em Londres, um noivado com um partidão (irmão da amiga que é médico na Índia).

A partir desses fatos esparsos, conhecemos um pouco da cultura da época e, se 100 anos nos separam, as aspirações diferentes das mulheres parecem que continuam as mesmas. Algumas querem carreira, algumas querem casamento e filhos, algumas focam na vida religiosa, algumas ficam solteiras, algumas ficam viúvas. Cada uma no seu caminho, e o que parece muito recente, talvez não seja tão recente assim. É só uma visão diferente da sociedade, fora das balizas patriarcais.

Gostei de ler esse livro e agradeço a editora que me enviou uma cópia digital do livro através da plataforma NetGalley.





7 de fevereiro de 2026

O Expresso de Tóquio

 

Editora Todavia

"O Expresso de Tóquio" (ou em tradução literal Pontos e Linhas), de Seicho Matsumoto é tipo Agatha Christie, mas japonês, como escrito na capa, só que de um jeito gelado e extremamente formal. É curioso porque os ingleses também tem essa fama de formalidade, mas só quem já ouviu um mexerico da Miss Marple sabe que não é esse o caso. 

Eu acho que essa diferença cultural fez o mistério perder um pouco da graça, mas a fórmula está exatamente aí: um caso suspeito de suicídio, que vira assassinato, descobre-se o porquê, como e quem no final. Tudo com um tempero japonês. Recomendo somente para interessados.

4 de fevereiro de 2026

Cinzas do Norte

 

Editora Companhia das Letras

Em Cinzas do Norte, estamos em Manaus, vendo uma confusão familiar se desdobrar entre personagens complexos e difíceis - mas tudo isso numa boa leitura fluida.

Dá vontade de discutir com quase todos os personagens - oras, tomem um rumo, caiam em si, superem - e acho que isso mostra como uma boa ficção pode ser muito realista. Além de, é claro, provocar reflexão sobre escolhas de vida, destino, e necessidade generalizada de terapia para todo mundo.

Recomendo.


30 de janeiro de 2026

Ilhas Suspensas

 

Editora Companhia das Letras

Entre tantos livros sobre maternidade, "Ilhas Suspensas" é um sobre a maternidade não realizada: quando o tratamento para engravidar não dá certo (e surpreendentemente o casamento permanece). Tem o cachorro de certa idade, companheiro de vida. Há também uma mudança de país por conta do trabalho do marido, ou seja, essa desconexão com o conhecido da vida no Brasil e ser imigrante.

O livro é em primeira pessoa, e passeia entre eventos, lembranças e reflexões da Mariana, o que lembra livros de auto ficção - mas o nome diferente da autora - Fabiane Secches - talvez seja um sinal de que tudo ali é realmente construído. 

Nessa conversa, vamos pensando sobre identidade e amizade, num livro leve apesar dos temas difíceis. Acredito que vai ressoar bastante em mulheres com situações parecidas. Gostei particularmente de tantas referências literárias contemporâneas e clássicas (um deles, por exemplo, fiquei com muita vontade de ler: A Corneta, também traduzido pela autora do livro).

Eu recebi uma cópia avançada do livro através do netgalley, pela qual agradeço à editora. 




28 de janeiro de 2026

O Imperador da Felicidade

 

Editora Rocco

Ao ler esse livro, me pareceu que Ocean Vuong trouxe a luz personagens tão marginais dos Estados Unidos, que eu li tudo com um misto de assombro e encanto. 

Eu vi críticas que o livro não parece realista - mas discordo. Não que eu conheça os Estados Unidos assim tão bem, mas conheço gente estranha o suficiente (no Brasil e na literatura), para saber que dá para existir gente assim, e é um desconforto e um alento lembrar do vasto mundo ao nosso redor.

Há algumas dicas de que algo é autobiográfico, como a dedicatória a alguém que tem o mesmo nome de uma das personagens principais e numa simples busca na internet as peças se encaixam. Ou o nome Hai. 

Mas o bonito mesmo é o retrato das amizades e como elas podem ser redentoras. Adoro livros de amizade, e recomendo esse para quem gosta desse assunto também.


25 de janeiro de 2026

O filho de Mil Homens

Editora Biblioteca Azul

Valter Hugo Mãe escreveu um livro belíssimo: O Filho de Mil Homens, no qual narra como se forma uma família, e os laços de amizade possíveis entre pessoas diferentes.

Ele escreve de forma poética, mas nada é muito meloso, talvez agridoce, porque a rudeza da vida também se faz presente, as dores e dificuldades.

É um lindo livro, e eu recomendo para todos.


21 de janeiro de 2026

Terra Partida

 

Editora Intrínseca

Eu vi o hype desse livro, Terra Partida, no bookgram ano passado e fiquei com MUITA vontade de ler. Aí, uma amiga ganhou, adorou, me emprestou e eu - finalmente! - li e... não gostei tanto assim.

Achei um dramalhão de uma mulher chata... mas pode ser um cinismo que eu desenvolvi em relação a quem confunde paixão e amor. Pode ser uma chatice minha também (considerando o tanto que vendeu e o tanto de gente que amou).

Mas é uma leitura rápida, de entretenimento (com dramas e gatilhos), mas pode ser que renda um filme bom também. Aguardemos. (um possível contrato para cinema - eu não sei se vai ter filme!)


17 de janeiro de 2026

Caixa 19

 

Editora Companhia das Letras

Claire-Louise Bennett escreve uma obra que parece uma longa carta para uma amiga: há algo sobre sua vida, reflexões sobre leituras e escolhas, pedaços de contos lembrados e reescritos... É uma mistura que nos leva a conhece-la (ou uma personagem?), ver seu amadurecimento. 

O que eu mais gostei foram suas citações de leituras - há inclusive Clarice Lispector, vê-la falar de livros clássicos que já li ou não, que fizeram parte de sua formação como estudante de literatura e/ou escritora.

O título é meio nada a ver (ela trabalhava num supermercado, sempre no caixa 19), mas acho que ajuda a não trazer expectativas para esse livro.




13 de janeiro de 2026

Eva

 

Editora Todavia

Eu gostei do começo do livro "Eva", da Nara Vidal, mas depois achei tão confuso, difícil de saber em que momento se está no livro, ou até, na última parte, quem estava contando a história...

Ele traz temas sérios sobre a mulher - maternidade, violência, se xualidade, mas achei pesado e difícil de acompanhar. 


12 de janeiro de 2026

Shogun

 

Editora Companhia das Letras

Eu gosto de ficções históricas - é sempre possível aprender mais sobre a cultura e os acontecimentos de um povo ou nação através da literatura. É necessário dar um peso para a veracidade, é claro, não se trata de uma aula de história, mas algo construído para entreter.

No caso de Shogun, ainda no começo do livro, eu fui achando tão estranho como os japoneses estavam sendo descritos, que comecei a desconfiar que havia um certo exagero ali, embora para o lado positivo. Pelo que eu vi de resenhas na internet, o autor James Clavell buscava sim posicionar a cultura japonesa como algo superior a cultura ocidental que ele fazia parte (nasceu na Austrália, cresceu na Inglaterra, morou nos Estados Unidos). Então, acabei achando algumas descrições bem artificiais, e realmente não sei o que é água do banho e o que é o bebê.

Isto posto, o livro é interessante, com bastante ação e personagens femininas fortes e objetificadas (me pareceu um livro para homens). Não assisti a série, mas entendo como deve ser um adaptação impressionante.

No entanto, o final me pareceu muito súbito - e fiquei sem saber se era o final mesmo ou um problema no arquivo que eu recebi via NetGalley em troca de uma resenha. Fiquei querendo saber mais.

Quem já leu para trocar ideias comigo?



7 de janeiro de 2026

Asymmetry

Editora Simon & Schuster

Assimetria é composto por 3 histórias - e embora eu tenha lido na sinopse que as duas primeiras contam sobre relações assimétricas (ou seja, alguém tem mais poder que o outro), a terceira foi para mim muito confusa - nada como a internet para explicar o caso.

Lisa Halliday escreve bem, e eu gostei particularmente da segunda (que fala sobre imigração) e também traz uma perspectiva cultural diferente.

1 de janeiro de 2026

Ladeira da Preguiça

 

Editora Todavia


Para começar o ano, firme no objetivo de ler mais livros brasileiros do que de qualquer outro país, li o curtinho "Ladeira da Preguiça", de Evanilton Gonçalves, baiano, sobre Salvador.

Ano passado, quando li "Na minha pele", do Lázaro Ramos, ele comentou que só na Bahia ele poderia ser qualquer personagem de Shakespeare além do clássico Iago, porque lá todos os atores são negros e isso não importa. Acho que eu nunca tinha reconhecido isso, a Bahia com a população majoritariamente de negros (ou pretos), já que ainda me lembrava de Jorge Amado, Caetano Veloso, e até alguns parentes que viviam lá... 

Nesse livro, encontramos personagens da cidade, populares como dizem, negros, trabalhadores, pobres. É uma Bahia diferente da praia e do carnaval. Vale a leitura para o encontro com uma diferente face do Brasil.